Com a devida autorização da colega Ana Capêlo. Resposta ao senhor Marques Mendes.

Exmº. Senhor Dr. Luís Marques Mendes,

Sou uma portuguesa, professora do 3º ciclo e ensino secundário em Viseu.

Habitualmente, sigo o seu programa no Jornal da Noite de domingo, na SIC. 

Foi com enorme surpresa que ouvi, no passado domingo, dia 17 deste corrente mês, Vª. Exª. dizer que, segundo a OCDE, um professor do 3º ciclo, com 15 anos de serviço, em Portugal, se situava em 20º lugar da tabela remuneratória, auferindo um vencimento anual bruto de 41.000€, vencimento que, segundo as suas palavras, é visivelmente inferior ao de outros países europeus com os quais pretendemos ombrear.

Sinceramente, fiquei estupefacta com tal valor, uma vez que eu, professora do 3º ciclo e ensino secundário, com 44 anos e uns meses de serviço, no 10º escalão da carreira docente (que é o topo dessa carreira) recebo um vencimento bruto que não se afasta muito para lá desses 41.000€!

Com os 15 anos de serviço, referidos na peça televisiva como “experiência”, um professor estaria, numa progressão normal (que não tem existido, como Vª. Exª deve ter conhecimento pelo muito que se tem falado), no 4º escalão, cujo vencimento bruto deveria estar, na melhor das hipóteses, no nível remuneratório 218, ao qual corresponde o vencimento ilíquido de 2058,36€ que, multiplicado por 14 meses dá o montante de 28.817,04€, ao qual acresce o subsídio de refeição que, atualmente, é de 6€. Se o professor trabalhar 22 dias, ao montante ilíquido acresce mais 132€ por mês. Feitas as contas, dará um total de 28.817,04€ mais 1.584€, correspondendo a 30.401,01€ anuais. 

Como facilmente se pode ver, este valor está longe dos 41.000€ referidos no comentário por Vª. Exª no passado domingo!  

E mais longe ainda fica porque todos sabemos que a carreira docente não foi totalmente descongelada, o que torna a distância para os 41.000€ ainda mais abismal!

Como é possível pensar que um professor, sensivelmente a meio da carreira, ganhe este montante!!

Perante este valor difundido, não é de admirar que muitos portugueses se convençam de que os professores, afinal, até ganham muito para o trabalho que fazem! 

Penso que esses valores foram cedidos pela OCDE, mas não estão corretos. 

Talvez fosse mais sério procurar informação dentro do próprio país, com as tabelas verdadeiras, que mais não são do que as tristes verdades da carreira docente.

Talvez, também, não fosse descabido corrigir os valores apresentados publicamente no domingo, para que os telespetadores pudessem tomar conhecimento do real valor dos vencimentos dos docentes deste pais. 

Apresento a Vª. Exª. os melhores cumprimentos

Ana Capêlo

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