O touro e o poeta

Miguel Torga acertou em cheio na definição de uma particularidade da personalidade portuguesa. Fernando Pessoa também se aproximou. É tudo uma questão de saber fingir. Não é só o poeta que é fingidor. Todos somos fingidores e até batemos palmas e vergamos a espinha aos melhores fingidores. Aos artistas do fingimento.

Torga, indignava-se com as touradas em Portugal. Não porque fosse contra, mas porque nunca assumíamos a morte do touro em plena arena. Tínhamos de o esconder nos curros e matá-lo às escondidas para fingir que não o matávamos e éramos todos bonzinhos. Os espanhóis não fingiam e assumiam o sangue na arena. Não fingiam e eram mais honestos que nós. Se Pessoa fosse vivo, não se limitaria ao poeta fingidor e também diria, como dizem muitos professores: A escola é fingidora. A escola, hoje, é das maiores instituições de fingimento nacional. 

A escola é fingidora / e finge tão completamente / que chega a fingir que é sucesso / o sucesso que deveras sente.

Porquê este fingimento? Por que razão não temos a coragem e a honestidade necessárias para assumirmos a não retenção dos alunos no sistema escolar português? Porquê continuar a fingir que o sucesso é real e não o resultado de ordens coercivas impostas aos professores? Países bem mais evoluídos que nós já o fazem há décadas. Porque não fingem e são mais honestos que os portugueses. Não é com fingimentos que se educa uma nação e se formam cidadãos. Não é a fingir sucesso que teremos no futuro alunos, homens e mulheres de sucesso.

PS. 

Os professores não pensam só nos 6/6/23. Também pensam numa escola de verdade e qualidade.

Dia 6 de setembro, já referi algo semelhante, no texto “RETENÇÃO?”

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