Pobreza voluntária, obediência inteira, castidade perpétua. Não sou religioso, não professo nenhuma religião e não acredito em Deus. No entanto, exceto a castidade, muito menos perpétua, parece que estou consagrado à escola como um religioso se consagra a Deus e à vida religiosa. Eu e todos os professores. Não é por acaso que muitos dizem que ser professor é uma missão. Talvez muitos entendam que viver e trabalhar numa escola é como viver e trabalhar num mosteiro. Alguns até já vivem em anexos e até estão obrigados à castidade, se bem que nao seja perpétua. As semelhanças são evidentes.
Comecemos pelo primeiro voto, o da pobreza. Alguém consegue cumprir melhor este voto que os professores? O professor português do século XXI é o equivalente ao operário do século XX. Cumprimos este voto com uma resignação que faz inveja a muito bispo ou cardeal. Se calhar, os professores é que deviam ser bispos ou padres e eles professores. Assim estaria tudo mais bem equlibrado quanto ao voto de pobreza.
Vamos ao voto da obediência inteira. Neste, aposto que ninguém nos ganha. Obedecemos mais facilmente do que muitos alunos obedecem para tirarem os livros e cadernos das mochilas para começar a trabalhar. Obedecemos e, quantas vezes, ainda agradecemos pela obediência. Parece que obedecer é um direito mais do que um dever. Nas escolas, obedecemos e com alguma sorte, somos recompensados com alguns méritos. Às vezes também me parece que só obedecemos porque podemos receber esse tal mérito e não por sermos mais obedientes que os outros.
Com tudo isto, quem ganha é o capelão, quer dizer, o senhor João. Perder, perdemos todos, porque com pobreza e obediência não há escola ou professor que não vá à falência.
