Mal os alunos entraram na sala de aula, perguntaram porque é que hoje não havia greve nesta escola. As outras estavam fechadas e esta não, porquê? Aproveitei o momento para descontrairem e tentar perceber como gira o mundo no interior das cabeças de crianças com 10 ou 11 anos. E gira muita coisa e coisas que normalmente não dizem em casa. Perguntei-lhes se sabiam o que significava a palavra greve. Foram muitas as respostas e uma delas bem acertada. Greve é quando alguém não trabalha porque está chateado com alguma coisa. Aproveitei ainda o momento para lhes perguntar se, no caso de eles poderem fazer greve, o que é que os chateava e os levava a fazer greve. As respostas foram tantas que tive de acalmar a turma e falou um de cada vez. O motivo mais consensual para fazerem greve era o peso das mochilas. Houve um aluno que até disse que fazia greve às costas. Outro acrescentou que substituiram os tijolos por livros. Tinha passado o tempo de descontração e iniciámos a aula de História e Geografia de Portugal, sem o peso das mochilas e com a esperança que esse peso e a greve às costas pudesse ser ouvida e atendida por quem de direito.
Eu é que não dou o caso por encerrado e gostaria muito de saber se aliviar o peso das mochilas dos alunos também sobrecarregava as contas públicas. Não me apetece voltar a explicar como é que tudo isto se resolveria muito facilmente. Já expliquei bem explicado e ninguém quer saber. A conclusão eu já a tenho há muito. Palavras bonitas, tudo pelas criancinhas, pelos alunos, a felicidade e o bem estar, mas não passa de conversa porque, intenção séria de mudar e passar das palavras aos actos, dá muito trabalho. Entretanto, crianças, não desanimem. Talvez um dia alguém vos ouça e possam deixar as mochilas em casa e ter os livros sempre na sala de aula.

A brutalidade do que os professores andam a fazer. Os alunos estranham quando há aulas. E quando há, em vez de estarem a aprender das disciplinas estão a falar sobre a greve dos professores. E ainda pedem respeito.
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Cheguei a pensar que estivesse mais preocupado com o fardo das mochilas às costas carregadas com “tijolos”.
Mas o que o incómoda são as greves. A mim também me incomodam e o meu salário é a prova disso.
Na sua cabecinha, greve pode significar muita coisa exceto um direito consagrado numa constituição democrática.
Falta acrescentar que a turma a que se refere o texto, terminaram a aula traumatizados porque o professor até explicou o que significava greve.
O colega sente-se bem? Não precisa de ajuda?
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