É Tempo de refletir, agora que há tempo…
Este texto, redigido em 2020 pela Dra. Dulce da Silva, doutorada e professora de filosofia no ensino secundário, além do excelente trabalho de investigação, revela uma impressionante actualidade. Agradeço-lhe a gentileza de o poder publicar. Na versão original, a Dra. Dulce fez questão de apresentar as fontes bibliográficas que me dispenso aqui de publicar por motivos de espaço.
Sou professora de Filosofia, tenho como princípios basilares da minha ação os que se alicerçam na ética e, como tal, no apreço pela pessoa entendida como valor absoluto. Assim, poder-se-á compreender como me sinto incomodada com o que tem vindo a público relativamente à classe profissional a que pertenço e ao ministério que a tutela.
Assola-nos uma hecatombe sem precedentes desde a segunda guerra mundial, vivenciamos horas de horror, pessoas que morrem, a solidão física e psicológica persiste contra a nossa natureza social. As consequências de tudo isto são imprevisíveis, nefastas certamente.
Nesta cena dramática, diria mesmo apocalíptica, o afã em que está mergulhada a educação formal afigura-se intolerável, não ficando tempo nem capacidade para pensar em aspetos como os que enuncio de seguida:
Primeiro: Neste final de período, o trabalho que se exigiu aos professores foi intenso, pois a última semana de aulas é, normalmente, dedicada à entrega de elementos de avaliação escrita e autoavaliações. Há que perguntar: qual foi o sentido desse trabalho?
Segundo: Durante os períodos normais de lecionação, muitos alunos descuidam as aulas, as tarefas de aplicação e o estudo, em grande medida por se aperceberem de certas narrativas prevalecentes na sociedade, que advogam o lúdico e o divertido, o hedonismo e a “felicidade”, em tudo dissonantes do empenho e esforço que a aprendizagem escolar implica. Agora, de um momento para o outro, pretende-se que, frente a um computador, se empenhem e esforcem de um modo que só alguns, muito poucos, conseguirão.
Terceiro: Por outro lado, há que lembrar a ideia da primazia do aluno e da secundarização ou afastamento do professor, bem clara nas novíssimas orientações da OCDE, que países como o nosso têm acatado sem crítica de maior. É preciso operar uma verdadeira transformação na relação pedagógica, diz-se nos documentos que leio: o professor retira-se dela, não pode ensinar, pois são os alunos que decidem o que querem aprender, para quê, como e com quem; será chamado a essa relação se e quando os alunos o entenderem. Enfim, a educação escolar “subordinou a aquisição de conhecimentos ao domínio das aptidões e capacidades”, considerando que os alunos podem aprender sozinhos (Mónica, 1997, p. 55). A verdade é que se tem defendido que são os próprios alunos a construir o conhecimento (Festas & Castro 2013).
Frente a estes e outros aspetos, tenho-me interrogado, atónita: afinal os professores são necessários ou não?
Se tivermos em conta a “pedagogia oficial”, a resposta é, sem qualquer dúvida, não. Nas suas casas, os alunos, por muito pequenos que sejam, com a “bússola de aprendizagem” que a OCDE diz que eles têm, hão de orientar-se para construir a competência global, invólucro das diversas competências transformadoras que lhes darão acesso ao futuro.
Independentemente, ou à margem, da “pedagogia oficial”, eu digo que os professores são indispensáveis. Segundo Gage (1963), o ato de ensino está ligado a um processo relacional, que influencia o outro, transformando-o. Nesse processo, o conhecimento, transmitido e adquirido, resultado do ensino e da aprendizagem, conduz ao aperfeiçoamento, fim último da educação. Por isso, como afirma Habermas, a ação educativa tem de passar, necessariamente, pela relação interpessoal, que pressupõe dois interlocutores (Martins & Rafael, 2006), um deles – o professor – detendo uma autoridade científica e pedagógica que o distingue do outro – o aluno –, de modo que este, no futuro, se eleve ao seu nível ou o supere.
Estamos a viver CIRCUNSTÂNCIAS DRAMÁTICAS EXCECIONAIS às quais não podemos nem devemos ficar indiferentes. Não temos apenas o dever de ficar em casa, mas também de refletir sobre o que advém da devastação pessoal que milhões de pessoas estão a sofrer. E isso não é compatível com a azáfama em que a educação está mergulhada.
Em tempos excecionais, urge aplicar medidas excecionais que não passam por sobrecarregar e desorientar as pessoas, no caso: professores e alunos, mas também as famílias.
A defesa da vida e a solidariedade, ainda que à distância, têm de ser os fundamentos de uma nova configuração social e ética.
É premente que se defendam os valores morais certos, que concorram efetivamente para a formação dos nossos alunos. E para a concretização desse desígnio é preciso abandonar a eficácia imediata e educar para a dádiva, numa lógica de coexistência, forjando-se, por esta via, aquilo que designamos como carácter (Camps, 1996).
Maria Dulce Marques da Silva
