O SNS está mau? As escolas não estão melhores. Eu diria, muito piores. Os médicos, acredito que ainda acertem nos diagnósticos e não tenho razão de queixa. Quanto às escolas, a coisa não é bem assim.
Foram ontem divulgados, no jornal PÚBLICO, dois relatórios da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência sobre as notas dadas pelos professores aos alunos e que mostram uma melhoria de resultados também a partir de 2020. E porquê o também? Porque o senhor João Costa quis justificar a enorme melhoria de resultados, com a consequente grande queda nas reprovações, com a pandemia. Ora, o que foi demonstrado é que esse brutal sucesso dos alunos também se manteve depois de 2020 e já era anterior à propria pandemia.
A professora Cristina Mota, em declarações ao PÚBLICO, foi muito franca nas observações que fez.
os professores são obrigados “a justificar cada negativa que dão” nas reuniões dos conselhos de turma, o que constitui uma “forma de pressão” para que se garanta o “sucesso” dos alunos. Também diz que “A melhoria dos resultados dos alunos resulta da legislação em vigor.”
Mas, eu vou ainda mais longe. Não só estão pressionados como estão proibidos, na prática, de atribuir níveis negativos ou a reprovar alunos. Eu já não conheço professores que arrisquem atribuir um nível negativo, do 5° ao 9° ano de escolaridade. Correm o sério risco de perder horas a elaborar relatórios com justificações que pouco ou nada valem, ou a perder horas de aulas de recuperação que não são pagas, ou pior que tudo, arriscam-se a ser humilhados em Conselhos Pedagógicos perante os seus pares e a serem considerados professores incompetentes. É a realidade, é a verdade.
O senhor João Costa, Ministro da Educação, ainda teve o desplante de afirmar que “A avaliação tem de refletir o que aconteceu durante o processo de aprendizagem” e, acrescenta com o mesmo despudor, que confia “no profissionalismo dos professores”. Com estas declarações consegue ofender muita gente, sobretudo os alunos. Este Ministro já mostrou o quanto detesta a palavra “ensinar”. Pode parecer anedota, mas não é: João Costa faz propaganda pedagógica das aulas invertidas. Isto é, o aluno já traz as aprendizagens de casa e, na sala de aula, é ele quem decide o que quer aprender e como quer aprender. Não, não é anedota.
E ainda consegue pronunciar estas deliciosas palavras, para justificar as mais baixas retenções de sempre, como sendo o resultado do “esforço das escolas na promoção do sucesso escolar”.
Uma mentira dita muitas vezes, pode parecer verdade. O que não pode ele esquecer é que os professores são pessoas de bem e profissionais sérios. Têm a legitima obrigação de denunciar estas falsidades.
Se um doente está doente, o médico não pode disfarçar a doença e dizer ao paciente que está tudo ótimo. Se um aluno está com dificuldades de aprendizagem, ou simplesmente não quer estudar, o professor não o pode avaliar com bom ou muito bom.
Mas, desde que o aluno entre na sala de aula de vez em quando, já temos aluno de sucesso.
