A cegueira ideológica ou política é a mãe de muitos males. De acordo com os padrões de progresso e de civilização, do senhor Ministro da Educação, a poderosa alavanca que elevará o nosso país aos níveis mais civilizados da europa, é a escola digital. O milagre do digital. Não é digital? Não presta. Ainda não se lembraram dos alunos terem educação física digital. Não sei se é possível, mas a avaliar pelas dificuldades motoras evidenciadas pelas crianças, já não faltará muito.
Eu sei, e todos sabemos, que a escola não é a única culpada, mas pouco tem feito para reduzir o analfabetismo motor.
Todos os professores, há muito que já vetificaram as dificuldades motoras evidenciadas pelos alunos. Desde a caligrafia até à simples atividade de mover uma cadeira ou uma mesa na sala de aula. Até nos intervalos se notam, claramente, as dificuldades dos alunos a andar ou a correr. Muitos correm de uma forma tão desajeitada que até mete dó.
Não, a culpa está longe de ser só da escola. No entanto, partilho da opinião de que deveria dar mais tempo de atividade fisica, mais desporto e menos tempo sentados numa cadeira numa sala fechados. Proibir os telemóveis nos intervalos, seria também um enorme contributo. Eu não vejo que os telemóveis sejam um grande problema dentro da sala de aula, mas tenho segura certeza que o são nos intervalos das aulas. Podiam começar por aqui.
A propósito deste assunto, um colega e amigo, professor de educação física, deu-me conhecimento de uma entrevista ao professor Carlos Neto, no dia 4 de outubro e que se encontra na RTP Play. Palavras tão sábias que merecem ser transcritas e jamais esquecidas.
” As crianças estão a ser completamente exploradas, capturadas, a um bombardeamento sensorial e percetivo em que os adultos não têm consciência do tempo que elas passam frente aos ecrãs, como aqui foram dados esses dados. Estes dados têm muitas consequências no sedentarismo, tem consequências na inatividade física… Temos crianças analfabetas do ponto de vista motor. Eu devo confessar que trabalho com crianças há 50 anos e a decadência é enorme. É preciso reconectar as crianças com a natureza, colocá-las perante situações de risco, dar autonomia de mobilidade, porque anda tudo agarrado pela mão e os pais querem que elas sejam génios. Neste contexto de hipocondría digital que estamos a viver é necessário redescobrir o corpo que nos transporta, porque, de facto, é preciso parar e escutar, perceber a nossa existência e, acima de tudo, entender que sem movimento, não há desenvolvimento, não há crescimento, não há vida.”
