A sacrossanta avaliação

A conversa estava interessante, mas facilmente deixei de prestar atenção. Discutia-se avaliação e o “excelente”. Quem é excelente e quem não é.

Obrigaram-nos a todos a acreditar que todos temos de ser avaliados. Coisa mais desumana e feia alguém havia de inventar. Como se todos pudessemos ser considerados coisas mensuráveis. Que vergonha. 

Ninguém é mensurável. Nem no trabalho nem fora dele. Quando muito, os outros, sim, os outros, podem pensar se somos boas ou menos boas pessoas, se mais simpáticas ou menos simpáticas, mais, ou menos inteligentes, mas nunca avaliar-nos como mercadoria transacionável. Eu não sei como pudemos aceitar que nos lavassem o cérebro com a ideia sedutora da avaliação. Talvez porque souberam despertar em cada um de nós aquele sentimento básico da inveja. Todos temos de ser avaliados. Que vergonha.

A quem interessa a ideia de que todos devam ser avaliados? A nós, trabalhadores? Com certeza que não, porque, ser excelente, pressupõe que alguém não o possa ser. E mesmo que todos pudessem ser avaliados como excelentes, seria muito mau e eu não aceitaria. Porque não seria verdade. Ser excelente, hoje, significa parar, não arriscar, não ousar, não tentar ser melhor e, acima de tudo, não aceitar o erro. 

Não há excelentes em parte nenhuma se não arriscarem errar. Se ser excelente é aceitar o estabelecido, o que já está feito e não ousar pôr nada em causa, então os excelentes serão os medíocres ou os razoáveis, mas nunca excelentes.

Se Einstein tivesse vivido nesta paranóia da avaliação, acham que alguma vez enunciaria a teoria da relatividade? NÃO. Não porque para lá chegar percorreu um longo caminho e aprendeu com os erros.

Se Darwin tivesse vivido nesta obsessão pela avaliação e pelo excelente, alguma vez teria enunciado a teoria do evolucionismo? NÃO. Não, porque também aprendeu com os erros. Se Freud tivesse também vivido neste chiqueiro avaliativo, e do excelente, alguma vez teria criado a Psicanálise? NÃO. Não, pelas mesmas razões.

Se estes homens, e poderia enumerar milhares de outros, trabalhassem hoje na função pública em Portugal ou em muitas empresas, seriam sempre homens medíocres. Medíocres, porque até o direito à livre opinião lhes seria vedado. Medíocres, porque jamais poderiam ousar discordar e fazer diferente do estabelecido. Medíocres, porque se errassem eram incompetentes. Medíocres, porque não tinham espaço para a diferença e para a criatividade. 

Se aqueles homens tivessem tido o azar de viver neste início de século XXI em Portugal, e se tivessem tido o azar maior de serem professores, seriam todos banidos com processos disciplinares, ou alvo de chacota de muito diretor e de muitos colegas de trabalho.

Não é por acaso que as melhores empresas privadas, as mais rentáveis e inovadoras, há muito abandonaram esta ideia hipócrita da avaliação e do excelente.

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