A palavra pode valer muito e pode não valer nada. Depende de quem a diz e de quem a ouve. Depende da quantidade de vezes em que é dita e da quantidade de vezes que é ouvida.
À custa de tanto ouvirmos falar em recuperação de aprendizagens ou em inclusão, acreditamos que há recuperação de aprendizagens e que há inclusão. Será mesmo assim? Talvez seja, porque mesmo com os factos à frente dos nossos olhos, duvidamos sempre da palavra poucas vezes ouvida.
O governo apresentou no dia 1 de junho de 2021, dia mundial da criança, um programa com 900 milhões de euros para a recuperação das aprendizagens. 900 milhões.
Em 2 de outubro de 2023, um lider parlamentar de um partido, disse que a despesa na educação em Portugal passou de 5,1% do PIB em 2015 para 4,6% em 2021. O que é verdade. Além disso, acrescentou que a despesa anual por aluno em Portugal, era em 2020 de 5552 euros, quando a média europeia é de 8174 euros. Quanto à recuperação das aprendizagens, Portugal gasta por aluno 281 euros, enquanto a Holanda, por exemplo, gastou 3027 euros.
Estes são os números, estes são os factos. E lembra-me aquela família com seis filhos, falo de acontecimento real, cheia de dívidas e cujo pai gastava o que tinha e não tinha, no casino da Figueira da Foz. A mãe era professora, os filhos passavam fome e um deles chegou a pedir nas ruas de Leiria.
Os 900 milhões, onde é que estão? Onde é que foram gastos? Consta que dois terços desse dinheiro foram aplicados em obras nas escolas. Mas, quais escolas? Onde é que estão essas obras? Dois terços, são 600 milhões. Onde é que se gastaram 600 milhões em obras e como é que essas obras se repercutiram na recuperação de aprendizagens? E quais aprendizagens?
Os meus colegas e colegas de muitas outras escolas também não me sabem responder. Ficam tão perflexos quanto eu.
O senhor Diretor, presidente de uma associação de diretores, a ANDAEP, Filinto Lima, afirmou há poucos dias: A “falta de recursos humanos (…) ” é neste momento, o maior problema da escola pública”. “Precisamos de recursos humanos nas escolas. Lidamos com crianças e jovens e os recursos humanos são fundamentais.”
Admitiu, talvez sem o querer, que também não deve saber muito bem para onde foram esses 900 milhões. Mas admitiu uma coisa, grave, na minha opinião, gravíssima! O maior problema da escola pública não são os recursos humanos. Mal ou bem, temos professores, temos funcionários e temos escolas a funcionar. O maior problema da escola pública é a total desvalorização dessa escola. Desvalorização dos professores e dos alunos.
Aqueles professores que todos os dias estão nas escolas e que se confrontam com enormes dificuldades e falta de condições dignas de trabalho, não notaram, não sentiram, não viram nada desses milhões, nem muitos menos qualquer coisa que se pudesse parecer com recuperação de aprendizagens.
