Não é só pelos baixos salários que os portugueses foram e continuam a ser um povo de emigrantes. É uma herança cultural que nem 50 anos de 25 de abril e mais 37 na Comunidade Europeia conseguiram banir.
Trabalhei numa ilha da Grã-Bretanha onde a população residente portuguesa, maioritariamente madeirense, era de cerca de 15 ou 20%. Na escola, os miúdos ingleses divertiam-se a perguntar aos colegas portugueses se a Madeira afundasse, quantos é que morriam. Depois respondiam, nenhum, porque estavam todos ali naquela ilha.
Tem sido sempre assim desde a grande aventura dos descobrimentos no século XV. Procuramos fora o que nos negam cá dentro. E somos mais considerados e respeitados fora do que somos dentro.
Os trabalhadores da Função Pública, de um modo geral, têm sofrido dos maiores ataques de que há memória na História de Portugal. E são um bom exemplo para compreender algumas das razões que explicam o descontentamento dos trabalhadores, a falta de motivação no trabalho e a baixa produtividade em todos os sectores dos Serviços. E não me refiro propriamente aos salários, porque o maior veneno que os governos têm feito circular nas duas últimas décadas, é o veneno da desconsideração, da mentira, da falta de respeito e da desqualificação profissional. Os professores são o melhor exemplo e as escolas a instituição que mais tem sido desqualificada e desconsiderada.
Fiz uma pequena sondagem sobre avaliação de trabalhadores em algumas empresas privadas. Nacionais e multinacionais, pequenas, médias e grandes. Não consegui encontrar nada que se pudesse assemelhar ao que se passa com os professores. Concluí que no sector privado, aquilo a que se pode chamar avaliação, sobretudo em multinacionais, muitas nacionais nem falam disso, serve sobretudo como fator de motivação e inovação. Precisamente o contrário do sector público.
A avaliação de professores, é a representação de um esquema criado por alguém possuidor de graves perturbações mentais. Lembra-me um livro que li e recomendo, de José Saramago, “levantado do chão” quando um fascista obrigou um filho a bater no pai.
A avaliação não avalia nada nem ninguém. Humilha e favorece um ambiente mafioso. Tão mafioso que já ninguém ou muito poucos querem ser professores. Os que já são, anseiam pelo último dia de trabalho e os novos, fogem desta vida como o diabo da cruz.
