As leis de mercado, à portuguesa.

É preciso regressar ao século XIV para podermos avaliar algumas das actuais políticas salariais do século XXI.

Ainda não se falava em capitalismo, mas pela primeira vez, e talvez a última até hoje em Portugal, funcionou a lei de mercado da oferta e da procura. E funcionou tão bem que obrigou o nosso rei D. Fernando a realizar a primeira reforma agrária no nosso país com a promulgação da “Lei das Sesmarias” em 1375. 

As crises deste século, agravadas com a peste negra e a consequente morte de cerca de um terço da população, provocaram uma carência de mão de obra e uma subida generalizada dos salários. 

Representou uma enorme conquista do povo trabalhador, forçada a viver ano após ano, dia após dia, com salários miseráveis, que para muitos nem garantiam os mínimos de sobrevivência. Era uma população de trabalhadores obrigada a viver em condições muitas vezes desumanas, desrespeitada e desqualificada. Não tenho conhecimento de outro momento na nossa História nacional em que as leis da oferta e da procura tenham funcionado tão bem a favor dos trabalhadores. 

Seis séculos depois, o capitalismo português, encabeçado por sinistros ministros, da Saúde à Educação, resolvem o problema de acordo com leis mais modernas de mercado. 

Faltam trabalhadores? Quer dizer, faltam médicos ou professores? Há escolas sem professores e alunos sem aulas? A solução encontrada é fácil. Contra todas as regras de mercado, incluindo a qualidade dos trabalhadores, desqualifica-se o trabalhador e a profissão e são chamados aqueles sem qualificações ou qualificações muito reduzidas, pagos com salários mais baixos.

É a realização e concretização do milagre capitalista português. Quanto aos médicos, ainda não tiveram coragem com a desqualificação profissional para suprir as graves carências desses profissionais no nosso SNS. Não tardará muito. Já vemos enfermeiros a desempenhar tarefas que competiam aos médicos. 

Entretanto, foram agora divulgados resultados sobre salários e poder de compra. Portugal é o sexto da Comunidade Europeia com salários mais baixos. Desde 2009, os Quadros Superiores da função pública já perderam quase 30% do seu poder de compra. Podem devolver aos professores o tempo trabalhado e confiscado, 6 anos, 6 meses e 23 dias, que nem de longe nem de perto recuperariamos o que temos perdido.

Deixe um comentário