Tentar compreender algumas singularidades dos portugueses não é assunto fácil.
Temos a sensação de que nunca houve tanto dinheiro público para gastar e, no entanto, as evidências são inegáveis. Maternidades fechadas por todo o lado e o Ministro vem à televisão dizer que nunca houve tantos nascimentos em Portugal. Urgências dos hospitais e especialidades fechadas um pouco por todo o país e o ministro vem à televisão dizer que está tudo a funcionar muito bem, porque funciona tudo em rede e eu nunca entendi que raio de rede é essa.
Um país com dois milhões de pobres, muitos deles trabalhadores assalariados, e o Primeiro Ministro vem dizer que nunca houve aumentos salariais como agora e tantos apoios e benefícios aos mais desfavorecidos.
Um país que investiu tudo na educação pública, que ofereceu computadores a torto e a direito, que gastou mais de mil milhões em tecnologias e, no entanto, nas escolas, os alunos continuam sem computadores. Nada. Nenhuma diferença de há 10 ou 15 anos atrás.
Um Ministro da Educação que até diz ter resolvido problemas que existiam há 50 anos e, o melhor que conseguiu foi desmotivar os professores e manter as escolas em constante estado de emergência com lutas e revoltas como nunca se tinha visto antes.
Um Ministro da Educação, já considerado pelos seus colegas de partido como o melhor Ministro da Educação de sempre e, no entanto, o melhor que conseguiu foram os piores resultados de sempre nos relatórios do PISA. Os alunos portugueses revelaram os piores desempenhos desde há muitos, muitos anos, em relação à média de outros alunos não portugueses.
Tanta inovação, tanta inclusão, tanta flexibilidade curricular, tanta autonomia das escolas, tanto poder dado aos diretores, tanta preocupação pela igualdade de oportunidades, tanta preocupação com os alunos pobres e discriminados e os resultados são estes? O Ministro diz que a culpa foi da pandemia. O desempenho dos alunos foi mau e muito mau, por causa da pandemia.
Singularidades portuguesas que poucos, muito poucos ousam denunciar, porque os outros, os muitos outros, têm medo ou se envergonham de denunciar. É o estado a que chegou a nossa democracia, ou a ditadura cobarde a que muitos se vão acomodando.
