A frase do meu aluno “… e eles andam sempre na rua…” calou fundo.
Falamos dos imigrantes. Pois andam, eles andam mais na rua do que nós. Perguntei ao aluno se andar na rua era mau e se isso o incomodava muito. Que não, não era mau andar na rua, mas depois tinham medo.
Que diabo andamos nós a ensinar às nossas crianças, aos nossos filhos, aos nossos netos? Tinham medo de quê? Onde é que nasceu esse medo? Quem é que os ensinou a ter medo? Ainda perguntei porque é que tinham medo fora da escola se dentro da escola até tinham tantos amigos estrangeiros e brincavam tanto com eles. Alguns riram-se.
Sem querer, aqueles alunos tinham alguma razão. Sair à noite nas nossas pequenas cidades é desolador. Um deserto. Parece que já todos se habituaram a ficar dentro de casa, faça chuva ou faça sol. A telenovela é mais interessante e quem ousa andar na rua é visto quase como um criminoso, ou um potencial criminoso. Anda na rua à noite? Não anda a fazê-la boa!…
Também já ouvi que eles, os estrangeiros, sobretudo os que não são louros ou com olhos azuis, não vêm para cá trabalhar. Vêm para viver de subsídios e para se aproveitarem do nosso SNS. Confundimos sempre a parte com o todo e queremos justificar as nossas frustrações e a vida difícil que levamos com aqueles que até trabalham onde nós já não queremos trabalhar e com salários mais baixos.
Nenhum estrangeiro imigrante pode receber qualquer subsídio sem estar devidamente legalizado. E a legalização não é assim tão fácil. Têm de fazer prova de muita coisa e até da língua portuguesa. Muitas turmas de estrangeiros estudam nas nossas escolas à noite depois de um longo dia de trabalho. E têm de fazer prova de residência o que nem para nós é fácil porque o valor das rendas atingiu preços obscenos. A diferença é que eles aceitam viver em condições que poucos ou nenhum de nós aceitaria. Muitos são explorados.
Explorados, precisamente por aqueles que na rua mais combatem a existência de imigrantes. A cobardia e a cretinice à solta porque se sabe impune.
Em 1961, o governo indiano deu-nos uma enorme, uma enormíssima lição de humanismo. Podendo aniquilar todos os portugueses colonos em Goa, Dâmão e Diu, optou antes por lutar e negociar com o governo português para que aceitasse pacificamente o regresso dos portugueses, militares ou civis. Regressaram sãos e salvos, sem derrame de sangue. Já em Lisboa, foram humilhados, ofendidos e castigados por terem regressado. Acarinhados lá, maltratados cá.
Sem ideologias de extrema direita, acredito que os portugueses poderiam ser um exemplo para o mundo.
