Vivemos hoje na escola do pensamento único. Parece exagero, mas não é. Tudo está pensado e decidido, embora se pretenda fingir que os órgãos dirigentes das escolas e outros órgãos intermédios ainda possuem algum poder de opinião ou de decisão. Tão mau como a escola do pensamento único, é a ideia, apoiada pelos discursos de propaganda, que tudo é democrático.
Combater um inimigo simulado, um inimigo hipócrita e que canta melhor que as sereias tentadoras de Ulisses, é mais difícil e assustador. Mais fácil é combater um inimigo que honestamente se assume como inimigo.
Era menos difícil combater pelos ideais democráticos antes do 25 de abril, do que 50 anos depois do 25 de abril. Nas escolas. Além disso, é difícil acreditar em quem acredita e se esforça pelo regresso da democracia nas escolas.
Conheço razoavelmente bem o ambiente de trabalho nas escolas portuguesas, do Minho ao Algarve. Sem esquecer a tragédia da falta de professores na zona de Lisboa e Algarve. Conheço razoavelmente bem as escolas onde o ambiente democrático não sofreu tanta erosão. Mas não são muitas.
Muitos dirigentes não tiveram a coragem suficiente para se amarrar ao mastro, fechar os ouvidos e não se deixar naufragar em promessas com tanto de tentadoras como de enganadoras. Promessas de rosas que floresciam num oceano de mentiras.
As principais vítimas são os alunos e os professores, mas acabamos por ser todos vítimas de uma escola pública que, hoje, contribui mais para o empobrecimento que o seu contrário. Tal como muitos hospitais têm contribuído mais para a doença e para a morte do que para a cura. Apesar do esforço e dedicação dos médicos e dos enfermeiros.
Se pudéssemos mostrar tão facilmente os alunos com dificuldades de aprendizagem – ou aqueles que não conseguiram recuperar aprendizagens ou, ainda, aqueles que são avaliados com níveis administrativamente inflacionados- tal como podemos mostrar um indivíduo doente, talvez a escola pública não se tivesse transformado na tragédia em que se transformou.
O desastre e a hecatombe dos resultados obtidos pelos nossos alunos nas provas de aferição e nos testes do PISA em muito se assemelham ao desastre de Alcácer Quibir. Apesar de morto, ainda acreditávamos em D. Sebastião.
Esta não é, com toda a certeza, a escola que abril viu nascer.
