Lembro-me quando frequentava a telescola e tinha de percorrer de bicicleta, todos os dias, cerca de 15 km, ida e volta. As aulas começavam às duas da tarde e terminavam às oito da noite. Esta aventura diária decorria numa estrada, sempre rodeada de pinhais. Hoje seria de eucaliptos, periodicamente queimados.
Lembro-me, e com muitas saudades, das lutas travadas à saída da escola entre colegas da mesma turma. Durante o dia de aulas éramos todos amigos, mas depois das oito da noite, tudo se alterava. Na primavera, as lutas eram muito frequentes. Poucos de nós íamos para casa sem primeiro limpar muito bem o sangue que corria do nariz de cada um. Nunca ninguém ganhou ou perdeu e eu nunca soube da razão daquelas lutas.
No dia seguinte, quando nos encontrávamos todos novamente na escola, já ninguém se lembra do sangue que tinha escorrido em abundância dos narizes de cada um. E éramos de novo amigos, pelo menos até às oito da noite. Nunca algum de nós fez queixa aos pais ou aos professores. Nunca nenhum encaregado de educação se deslocou à escola para tentar saber das razões das marcas de sangue que muitas vezes ficavam na nossa roupa.
Éramos felizes? Sim, eu era feliz e concentrava-me muitas vezes mais nessas lutas do que nas aulas. Sempre adorei a telescola, os colegas e os professores. E, nos intervalos das aulas, nem tudo era pacífico. Aconteciam muitas lutas que deixavam nódoas negras bem visíveis para quem as quisesse ver. Nunca fazíamos queixas a ninguém. Tenho ainda a lembrança que aqueles com quem lutava eram os meus melhores amigos.
O que é que mudou?
Adolescentes cada vez mais infantilizados, menos autónomos e, dramaticamente, superprotegidos.
Encarregados de educação cada vez mais protetores e cada vez mais convencidos que o seu educando é um príncipe, um herói, o melhor do mundo e todos os outros são maus e filhos de uma classe menor. Palavra pronunciada pelo filho, é a verdade absoluta porque, agora, todos os pais têm filhos perfeitos.
As novas tecnologias têm ajudado e não são poucas as vezes em que encarregados de educação enviam menagens aos filhos sabendo que eles estão em aulas. Entram num autocarro para visitar um museu e os telemóveis não param de receber mensagens “Está tudo bem?” Ridículo. Tratamos as crianças, adolescentes, como se fossem ou tivessem de ser eternamente bebés.
Agora, tudo é violência. Todos a procuram e todos a alimentam. A escola parece sequestrada por este ambiente artificial de violência fabricada por muitos encarregados de educação e por alguma comunicação social.
Há violência nas escolas? Há.
Tem de ser levada a sério? Tem.
Há exploração e aproveitamento político dessa violência? Sim e as maiores vítimas têm sido os professores.

Este texto é maravilhoso! Traz-me à memória tantas recordações de um tempo em que não tínhamos medo e eramos realmente felizes. Apesar de ser rapariga, já era aquilo a que chamavam “maria-rapaz”. Não por me parecer com um rapaz ou vestir-me como tal, pelo contrário, mas porque gostava de brincar e de jogar com os rapazes da minha rua, sem que houvesse maldade, discriminação de género ou bullying. Aprendi muito com eles a ser forte, resiliente e desenrascada, sobretudo a saber lidar com os outros e a respeitar as diferenças. Nunca conheci a violência tal como a conhecemos hoje.
Na verdade, os maldosos e violentos já eram os adultos! As raparigas que tinham a ousadia de desafiar as convenções (e os pais!) e brincar com os rapazes eram vistas como pouco sérias, e os rapazes como rufias! Escusado será dizer que as raparigas acabavam por ser castigadas pelos pais, mas não pelos rapazes com quem brincavam. Pelo contrário, naqueles tempos havia verdadeira amizade e solidariedade. Os rapazes defendiam as raparigas! Para nós, rapazes e raparigas, as nossas brincadeiras representavam liberdade e felicidade. Claro que há sempre um preço a pagar por tudo, e no meu caso, paguei com os joelhos muitas vezes esfolados e pisados (bolas, como doía!). Quando isso acontecia, vinha logo algum adulto e dizia com especial prazer “Bem feita!”, ao que eu costumava responder, encarando isso como um elogio “Já fiz melhor, mas obrigada pelo elogio!” Não havia nada que os deixasse mais irritados!
Apesar de os rapazes serem educados para não chorar, já naquele tempo eu percebi que afinal também eles choravam, escondidos, mas choravam! Mas quanto a rir, ríamos todos sem esconder a nossa felicidade.
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Mais maravilhoso é o teu comentário!
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Concordo absolutamente com tudo o que o Colega escreveu.
Queria partilhar neste meu comentário, algo nostálgico, o seguinte: Nesses tempos “não havia” bullying! Tínhamos de nos saber defender/desenrascar.
Lembro-me que por esta altura do Carnaval, fui “corrido”… à bomba. A cada quarteirão lá estavam aqueles dois… eram mais rápidos do que eu! Eu, “bucha” e a pé, eles de bicicleta, conseguiam levar a sua avante. Os rebentamentos daqueles petardos, para cima de mim, é que não tinham piada nenhuma.
Lembro-me de uma tia minha ir fazer queixa à minha encarregada de educação (Mãe) de que eu teria publicado algo obsceno sobre uma colega de turma (que também era sobrinha dessa minha tia!!) nas “redes sociais” da altura… leia-se, pedaço de papel. Pois bem, eu até àquele dia era martirizado diariamente por essa e outra colega, já espigadota, de menino-copo-de-leite… ficou tudo resolvido ali em minha casa… a minha Mãe convidou a cunhada a pôr-se a milhas.
O meu irmão… (não assisti a isto)… Agredido a pontapé, enquanto permanecia no chão, e o nosso vizinho (mais pobre do que nós), ou será pobre vizinho(?) registava o momento… em fotografia. Hoje seria com o telemóvel. Espetacular o fato desse pobre vizinho se tornar um soldado da paz, algures num quartel deste país.
Tantas e tantas memórias.
Os meus pais… nunca se deslocaram à Escola. As notas chegavam a casa através de um postal dos correios… e posso afirmar que eram Muito Boas.
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Tenho a leve impressão de que se passou do 8 para o 80, coisa muito habitual neste país à beira mar plantado. Havia excessos por um lado e agora há por outros. Ainda hoje vi uma encarregada de educação a tirar o menino de 11 anos do carro, pegar pela mão e atravessar a rua com ele até ao portão da escola. O miúdo não possui qualquer deficiência de nenhuma natureza, eu conheço-o bem. Miúdo até muito simpático.
É assim que eles crescem? É assim que se fazem Homens? Eu acho que não. São meninos que crescem sequestrados pela permanente dependência dos pais, ou de outros adulos e com dificuldades de afirmação e domínio dos momentos menos bons da vida.
Seria ótimo algum equilíbrio.
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