Lembro-me dos meus colegas do ensino primário excluídos da possibilidade de frequência do ensino secundário. Lembro-me que alguns deles revelavam grandes facilidades de aprendizagem. Quase todos foram excluídos da escola que agora é considerada um elevador social. A escola era uma instituição séria e não se falava de inclusão. Dificilmente alguém prosseguia estudos para além da quarta classe.
Quantos desses alunos, excluídos, não teriam sido grandes engenheiros, grandes médicos, cirurgiões, eletricistas, investidores e homens e mulheres que poderiam ter dado o seu contributo para uma sociedade mais justa e mais solidária? Não é que não tenham tido sucesso na vida. Pelo que sei, tiveram e com muito mérito. Mas o sucesso não se mede com os carros, com as casas ou com as contas bancárias. O sucesso mede-se pelo saber e pela ciência. Quem nos poderá garantir que um desses meus colegas, se tivesse estudado, não teria descoberto a cura do cancro?
A escola era séria, embora excluisse competências e talentos. Séria, porque dava oportunidades aos poucos que podiam prosseguir estudos. Séria, porque não nivelava por baixo e assumia deliberadamente a exclusão. Séria, porque não alimentava ilusões de sucesso garantdo. Séria, porque não mentia. Com todos os defeitos, e não eram poucos, mas era séria. Não revelaste competências e conhecimentos para o exame da quarta classe? Não fazes. E não era menos dramático não realizar esse exame do que não concluir hoje um curso superior.
Séria, mas discriminatória e não inclusiva, ou nem séria nem inclusiva?
Hoje, teoricamente, todos podem estudar, todos podem sonhar com estudos superiores. A escola, dizem que é um elevador social, promove a igualdade de oportunidades e é uma escola inclusiva. Escola, a grande conquista do 25 de abril. Será tudo isto?
O ataque despudorado à escola pública democrática desde 2007, transformou-a numa instituição pouco ou nada séria. Protegida pelo manto manipulador da inclusão e da igualdade de oportunidades, deu à luz uma escola ATL e fábrica de ilusões. Não distingue o mérito nem do aluno, nem de professor e desenvolve uma pedagogia do facilitismo e do oportunismo. Não resolveu os problemas do passado e compromete seriamente o presente e o futuro de todos nós.
Ler os programas de todos os partidos políticos concorrentes às eleições de 10 de março, no que respeita à educação e escola pública, é assustador.
Sem uma cultura e pedagogia de trabalho e exigência, não valorizamos o mérito e promovemos a incompetência e a irresponsabilidade.
