RESPOSTAS

Não, não há respostas para tudo e não há respostas para todos e, quando há, nem todos as querem ouvir.

Defronto-me imensas vezes com incapacidade de dar respostas. Até aos meus alunos. É tão difícil dar respostas quando as perguntas são tão simples. Estranho? O mundo parece estar cheio de contradições. 

Oiço por todo o lado, não excluindo o meu local de trabalho, que é preciso mudar tudo, isto está tudo mal,  temos de mudar o sistema, isto não pode ser, é preciso acabar com esta… coisa toda, acabar com esta coisa toda. Às vezes, fico calado e oiço porque não tenho respostas e sei que quem fala ou sente assim, não quer respostas. Não aceita respostas. Acabo por perguntar.

Dizia o pensador e poeta Alexandre O’Neill que se soubessem o que custa perguntar, passavam a vida a responder. Eu pergunto, arrisco perguntar mesmo com a certeza de que não sou ouvido.

É preciso acabar com que sistema? Qual sistema? O sistema que te deu emprego e te paga o teu salário todos os meses, bom ou mau, mas sem falhar? O sistema que te permite viver numa casa tua, mesmo que a pagues ao banco? Uma casa com algum conforto, onde vives com a tua família e te podes sentar em paz num sofá muito confortável e olhar para uma televisão ou ouvires a tua música preferida? É este sistema que queres destruir?

E o que é que está tudo mal? Tudo? Está mesmo tudo mal? Sabias que há 50 anos atrás se fosses professora tinhas de pedir autorização para casar? E se fosses enfermeira nem podias casar?

E sabias que o divórcio era proibido? Sabias disto? Sabias que não podias votar ou votar só no partido único? Sabias? Sabias que nem tinhas direito a pensar porque os outros pensavam por ti?

Sabias que há 50 anos atrás nem um SNS tinhas? Sabias que se vivesses há 50 anos o mais provável seria não estares aqui porque não terias ido além da quarta classe na escola? Está tudo mal? Queres voltar a esse tempo? Foi nesse partido que votaste? Sim, esse partido que diz que está tudo mal e temos de limpar tudo? Sabes o que significa a palavra “limpar” para essas pessoas? Certamente não sabes e eu também não te vou dizer.

Terás certamente muitas razões de queixa, todos temos e temos de lutar por uma vida mais saudável, mais respeitada e mais digna. Temos. 

Deves começar por te queixar de ti próprio. Sim, tu não estás isento de culpa. Tu não és imaculado. A culpa não é só dos outros! Que tens feito tu para ajudar o teu país a ser mais livre, mais fraterno e mais feliz para todos? 

Que tens feito tu, para além de não te calares e dizeres que está tudo mal?

2 opiniões sobre “RESPOSTAS

  1. Com uma resposta assim, o que mais há para perguntar? O melhor seria que os nossos adolescentes e jovens fossem ver o filme que estreou esta quinta-feira no cinema. “Revolução sem Sangue” conta a história trágica de cinco portugueses no 25 de Abril de 1974. Jovens que morreram depois de terem sido apanhados num tiroteio em frente à sede da PIDE, em Lisboa.

    Ontem, fui ver o filme. As minhas perguntas, que também não têm resposta, são estas: Como foi possível que durante 50 anos não houve um filme que contasse toda a verdade? Como foi possível, ano após ano, contar a história da Revolução dos Cravos sem falar das últimas jovens vítimas de um regime assassino que teve como instrumento de tortura, terror e morte a bruta PIDE/DGS? Como foi possível omitir o sangue derramado às mãos da sanguinária PIDE para que permanecesse a ideia de que em Portugal houve uma Revolução fofinha, pacífica, e sem uma gota de sangue derramada?

    A bem da verdade e da História, e para que nunca caia no esquecimento, a Revolução do 25 de Abril de 1974 começou quase 48 anos antes, com a luta na clandestinidade de homens e mulheres, jovens e adultos, cujo sangue, suor e lágrimas foram derramados para que hoje possamos viver e falar (ainda) em Liberdade.

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