Ó FILHO …

Há poucos dias atrás, no parlamento português, aquele homem da extrema direita e presidente de um partido, que me recuso dizer ou escrever o nome, disse, textualmente, estas palavras: “já ninguém quer saber do 25 de abril para nada.”

O 25 de abril, sejamos claros, honestos e rigorosos, não pertence a nenhum partido político e não é popriedade de ninguém. É nosso, de todos nós, porque nos devolveu a esperança. Mesmo que tantas vezes traída, essa esperança mantem-se viva.

Quando um homem diz que já ninguém quer saber do 25 de abril para nada, eu pergunto-me se a mãe daquele filho poderá algum dia ser feliz e sinto pena de tanta mãe que sofre e sofreu pelos filhos.

A minha mãe, católica convicta, se me ouvisse pronunciar essas palavras, ela, ela que de política só sabia em não faltar com nada aos filhos, iria chamar-me e dizer-me, “Ó filho, tu não estás bom… sabes que o teu pai se não tivesse ido para França quando tu nasceste, ó filho, tu e os teus irmãos se calhar iam passar muita fome.”

“Tu não te lembras quando estavas com ele no mercado Santana em Leiria e o outro desavergonhado de fato e gravata ia levando o teu pai para interrogatório? Não te lembras, filho? Tu falavas tantas vezes isso com ele… foste tu que disseste filho, tinhas 6 anos, foi em 1967 e o teu pai também me disse. Ó filho e o teu pai só tinha respondido a esse senhor que a vida aqui em Portugal estava pior que nos anos 40. O teu pai contou-me isso muitas vezes.”

Depois penso no que terá falhado na educação daquele filho, presidente de um partido político desumano, que nunca soube ou não quis entender o que centenas de milhar de portugueses sofreram para poder sustentar os seus filhos e poderem ajudá-los a conquistar uma vida com dignidade e com esperança. Porque no seu país tudo lhes era recusado e encontraram no estrangeiro, nos países democráticos do estrangeiro, o que o seu país de ditadura lhes negou.

Se fosse viva, talvez ainda me pudesse dizer hoje “Ó filho, tu estudaste e sabes melhor do que eu que nunca estudei, tu não vás nessa conversa, filho.”

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