Nunca passei fome, mas vi passar muita fome a amigos meus da escola. Nunca andei descalço e sempre tive umas botas para calçar, mas vi amigos meus a ir descalços para a escola. Nunca passei frio, camisolas nunca me faltaram, mas vi amigos meus a tremer de frio a caminho da escola. Vi amigos meus, a correr, a tentar sair mais cedo no intervalo das aulas para me roubarem a merenda que era minha a meio da manhã. Nunca protestei, nunca fiquei zangado, nunca fiz queixa à professora.
Na escola onde hoje trabalho vejo muito pedaço de pão pelo chão no recreio. Na escola onde trabalho vejo montes de casacos e camisolas e toda a espécie de roupa, em montes, sem ninguém saber a quem pertence. E vejo livros, muitos livros, pilhas de livros, quase todos em bom estado, atados com cordéis e com a informação em cima, fim de validade.
Quando andava na escola, um caderno era um luxo. Quando andava na escola um lápis era uma raridade. Quando andava na escola uma lapiseira era um sonho que poucos alcançavam. Quando andava na escola uma caixa de lápis de cor, havia, mas vinham de Paris. Quando andava na escola escrevia com lápis de pedra numa ardósia. Quando andava na escola, brincava.
Ainda ando na escola. Do lado de lá sem nunca esquecer como era do lado de cá. Ia a pé para a escola e não era ao lado de casa. Fazia kilómetros a pé, verão ou inverno, chovesse, trovejasse ou com o sol escaldante no regresso. Ia de bicicleta, porque a quarta classe tinha terminado e quem quisesse continuar estudos a escola era longe, muito longe.
Ainda ando na escola e, quando lá chego todos os dias de manhã chega a parecer que são mais os carros que as pessoas. E vejo mães abraçadas aos filhos de 12 anos a despedirem-se com beijinhos como se os seus filhos fossem para a guerra do ultramar. E vejo filhos com mochilas carregadas de materiais escolares, alguns também com compuadores. E vejo crianças, alunos a pegarem no telemóvel mal acabam de se despedir da mãe ou do pai. Os pais também dão beijinhos, não são só as mães. Quando eu era aluno, os pais não davam beijinhos. Os pais não iam à escola.
Quantas vezes não entro na sala de aula e olho para os meus alunos e penso: “se eu lhes contasse como era a vida das crianças na escola quando eu tinha exatamente a idade deles, será que compreendiam? Será que acreditavam?”
Nas aulas de História eles não percebem como é que no século XIX e inícios do século XX crianças com 8 anos iam trabalhar para as minas de carvão. Não percebem como é que pouco antes do 25 de abril, crianças com 10 ou poucos mais anos iam trabalhar para a construção civil. A escola é um sacrifício.
O percurso foi longo. O percurso foi lento. O percurso pode ter sido até injusto. Para muitos continua a ser injusto.
Regressar ao passado seria uma pecado social. Mas viver o presente com ausência desse passado próximo e partir para o futuro sem consciência desse mesmo passado, não conseguiremos educar pessoas para a vida e para a liberdade. Cidadãos livres e gratos com consciência do valor daquilo que hoje lhes é dado de mão beijada. Sim, de mão beijada. Tudo é dado de mão beijada, até a avaliação das disciplinas no final de cada trimestre ou de cada semestre. De mão beijada.
