Embarcou no Niassa em 1970, esteve 27 meses em Moçambique e ganhava 30 escudos por dia. Por 30 escudos, a preço de saldo, os militares potugueses em África podiam matar pretos e pretas que não havia problema. Por trinta moedas também judas vendeu cristo. Assim fez o Estado Português de extrema direita. Extrema direita.
Uma cerveja custava 4 escudos e estávamos em 1970. Conversei com o ex militar português que esteve 27 meses em Moçambique sem nunca ter vindo a Portugal.
– Nem nas férias podiam vir cá ver a família e esquecer a guerra, por pouco tempo que fosse? Ou não havia férias? – Riu-se um pouco e respondeu-me.
– Vir cá? Férias até havia, mas vir cá como? A ganhar 30 escudos por dia quem é que podia vir cá?
Tem 75 anos, viveu a maior parte da vida emigrado em França. Com aspeto muito jovem, agradece à França a família que lá construiu, mas Portugal está sempre no coração.
– Quando não estavas em combate, gostavas de lá estar? Foste para lá porquê? – levantou a cabeça e mostrou uns olhos com uma expressão de espanto. Visivelmente espantado com a minha pergunta, talvez um pouco idiota.
– Gostar de lá estar? Eu? Eu gostar de lá estar? Quem é que gostava? Eu estava lá porque fui obrigado. Apanharam-me na fronteira quando vim uma vez a Portugal. O que é que eu podia fazer? Fui para lá como os outros. – Este militar já era emigrante em França antes de ser apanhado para cumprir serviço militar.
– Mataste lá alguém? – A expressão, embora um pouco hesitante, era de verdade e de convicção.
– Não. Nunca matei ninguém! Cheguei a ter um preto na mira da G3, mas não disparei. Não fui capaz.
– Ficaste arrependido de não teres disparado? – A resposta foi pronta e seca.
– Não!
– Mas sabes que matavam…
– Sei. Sei e vi matar. Um gajo preto que tinha uma espécie de uma loja onde vendia umas coisas, mandioca, massas, farinha de milho, pequenas coisas. O gajo estava dos dois lados. Quando lá ia a FRELIMO ela punha um quadro com a fotografia do Samora Machel e quando lá ia tropa portuguesa, virava o quadro e mostrava o Américo Tomás. Um dia a tropa fez-lhe uma espera, apanharam-no e mataram-no. Ele levava comida à FRELIMO.
Tinha uma pergunta que não podia deixar de fazer e que me atormentava a consciência.
– Havia lá racismo? Os portugueses ou os militares eram racistas?
– Os militares? Os militares não sei bem. Os meus colegas queriam era vir embora e muitos faziam-se de doidos para os mandarem embora. Racismo? Havia. Havia racismo, pois havia. Vi portugueses darem muita chapada na cara a pretos sem razão nenhuma, só porque sim.
Ainda queria perguntar muita coisa. Tinha tanta coisa a perguntar… tanta coisa que eu queria saber contado na primeira pessoa. Aqui só faço um resumo e muito breve.
– Achas que o Estado Português actualmente tem alguma consideração pelos soldados que lá andaram na guerra? – riu-se e li nesse sorriso algum desprezo e incompreensão.
-Então não tem? Eu estou rico. Dão-me 120 euros por ano. Eu já me lembrei de ir dizer que não quero que me dêem nada. 120 euros ano….
– Tens alguma opinião sobre o governo português da altura e sobre estas coisas todas das colónias… – Respondeu-me com agressividade contida.
– Nem me fales em fascismos e coisas de extrema direita… é tudo gente doida!
A conversa não terminou aqui e enquanto decorreu, em ambiente de total descontração, não vislumbrei qualquer ressentimento ou marcas psicológicas deixadas pela guerra de 27 meses.
