Um dia de manhã

Não sei como é que aconteceu, mas aconteceu. Mal abri a porta do carro, ouvi uma voz estranha que me abordou quando eu já estava concentrado na primeira aula que iria dar às 8h30. Assustei-me, mas rapidamente me recompus. Tinha uma voz demasiado doce e eu não estou muito habituado a tantas doçuras. 

– Descuidou-se um pouco na hora… Faltam 12 minutos para começar a aula. Tente sair mais cedo de casa. Vai chegar à escola 3 minutos antes de começar a aula. A rua à saída, do lado esquerdo, está cortada e vai atrasar-se 6 minutos. Além disso, deveria ter tomado um pequeno-almoço saudável. Esses desleixos não ajudam nada quando tiver de enfrentar os seus 28 alunos. Não esqueça que depois tem mais 28 e, a seguir, mais 20. Os alunos têm o direito de encontrar na sala de aula um professor bem-disposto.

– Já acabou o discurso? Não tem mais nada a reclamar ou a aconselhar?

– Por acaso tenho. A sua mochila está muito pesada. Devia ter tirado aquele livro “O fim da vergonha”. Tem canetas e lápis a mais e não precisa de tantos, só tem uma mão para escrever. O seu portátil deveria ficar em casa, ou na escola, aliviava bastante o volume da mochila. Não esqueça o seu guarda-chuva no carro, vai precisar dele quando mudar de sala e não o deixe por lá perdido, já é o quarto este ano.

A caminho da escola, confirmei – a rua do lado esquerdo estava mesmo cortada. Irritei-me e protestei com o desgraçado do trabalhador. Aquilo não se fazia. Cortar uma rua logo à saída de casa, àquela hora crítica. Se chegar atrasado 10 minutos, quem é que me justifica a falta? Tenho 28 alunos à minha espera, ouviu?

Não sei se ouviu. Ouvi eu aquela voz doce e, agora, mais irritante porque eu também estava irritado.

– Vai chegar 3 minutos antes da aula, já lhe tinha dito. Não acenda o cigarro. Os seus alunos já lhe disseram que fumar faz mal e até lhe ofereceram aquela caixinha muito bonita que eles fizeram e desenharam à mão, com 6 cigarros que parecem mesmo verdadeiros. Leu o que lá escreveram? “Fumar faz mal, deixe de fumar, já!” Está laranja, pare no semáforo. Não, não acelere, vai ficar vermelho, trave! Tenha calma, tem de estar calmo para falar na sua aula sobre o Estado Novo. Eu sei que não gosta, mas os alunos têm aprendizagens essenciais. O vídeo que lhe vai mostrar é violento, mostre-lhe outro mais suave. Não, não lhe faça as perguntas que está a pensar fazer. Eles não entendem e os pais vão ficar preocupados. 

Ia a meio do caminho entre a casa e a escola. Farto daquela conversa, virei à direita, parei o carro, apaguei o cigarro, atravessei a rua a pé e entrei na clínica. Esperei meia hora e entrei no consultório.

– Doutor, eu duvido muito que esteja bom. Ando a ouvir vozes. Desde que entrei no carro, hoje de manhã, a voz não se cala. Uma voz doce que me deixa azedo. Doutor, hoje não vou trabalhar.

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