Talvez não pelos motivos que muitos possam pensar. Professor é uma profissão para idiotas, ou para loucos, ou para pessoas que sofram de uma síndrome qualquer de paixão exacerbada pela causa da educação.
O salário? Não. Sabemos que não é justo, mas quanta gente está longe de ter salários justos! Horário de trabalho, condições de trabalho e falta disto e mais aquilo? Não, também não. Porque o governo desvalorizou, desregulou e degradou a importância e a qualidade da escola pública? Não, nem por tudo isso.
Conheço os professores e sei ler o que lhes vai na alma. Conheço os alunos e também sei ler o que lhes enche ou vaza a alma. Conheço o significado de sonho, de amor, de raiva, de amizade, de respeito ou desprezo e, também, de cegueira. E corre muita cegueira na alma de muitos portugueses, na alma de muitos encarregados de educação.
E muita ignorância e muita malvadez. Pais que nunca o deveriam ter sido e filhos, e muitos filhos, vítimas desses pais. Nós conhecemos. Nós sabemos. Nós somos professores. Trabalhamos com esses filhos, construímos homens e mulheres do presente e do futuro e oferecemos na escola o que muitos pais não sabem dar em casa. Gratuitamente.
E há pais que cospem na escola como outros cospem nos pratos que os alimentam. Ingratos e arrogantes, na mesma proporção do volume de ignorância que transborda dos seus lábios, desafiando o poder e o saber que a sua pequenez não sabe reconhecer.
Pais que desafiam o amor que os professores entregam aos seus filhos, todos os dias e todas as horas, em cada gesto, em cada atitude e em cada palavra.
Pais que não merecem os filhos que têm. Pais que não merecem a escola que têm. Pais que não merecem os professores que os seus filhos têm.

