46 mil. A Ilusão.

É muita gente. Mais de um terço dos professores do Quadro do Ministério da Educação.

Todos os setores de atividades económicas têm os seus motivos para contentamentos ou descontentamentos, satisfações ou insatisfações. Há setores de atividades mais sensíveis do que outros e uns mais imprescindíveis do que outros. A saúde, por exemplo, ou a educação.

O momento atual na nossa saúde pública é absolutamente dramático e, eu diria mesmo, escandaloso. São abundantes os testemunhos com relatos que nos deixam os olhos rasos de lágrimas e o coração cheio de vergonha. Doentes nas urgências, abandonados ou deixados à sua sorte, porque não há médicos suficientes. Doentes de idade avançada que morrem sós, porque não há enfermeiros ou médicos suficientes para as necessidades. Doentes a sofrer de solidão nas enfermarias porque as visitas são obrigatoriamente muito restritas. Médicos, enfermeiros e auxiliares, exaustos.

Não, eu recuso a política do caos e do tudo está um caos. Não, não está tudo um caos. Nem nos hospitais nem nas escolas. Mas alguma coisa está realmente muito mal e não há memória recente de algo semelhante. No último concurso de professores, com resultados ainda não tornados públicos, cerca de 46 mil efetivos do Quadro de escola ou agrupamento, concorreram para mudar de escola. Mais de um terço.

Há escolas com percentagens elevadíssimas de professores a concorrerem para mudar. Nos últimos anos esta realidade tem-se agravado. Não, não é normal e nem sequer saudável para o melhor ambiente pedagógico e favorável a aprendizagens de qualidade. Os professores concorrem para uma escola mais próxima da sua residência? Talvez, alguns, mas não é essa a razão mais ouvida e mais invocada.

Tal como os médicos e enfermeiros nos hospitais, os professores estão exaustos e não suportam o ambiente vivido no dia a dia das escolas. Procuram melhor. Procuram escolas onde se respire com outro à vontade e sem os mesmos constrangimentos. Procuram escolas com outras condições de trabalho. Procuram escolas onde ainda se respire democracia. Escolas onde os professores sintam disciplina e responsabilidade e onde não reine em abundância o facilitismo e a impunidade. Procuram escolas onde o ato de lecionar expresse vivamente a paixão e o amor à educação.

Essas escolas existem? Vale a pena tentar mudar? Compensa o esforço pela mudança? Não creio. Sobra a ilusão e os professores vão-se alimentando de ilusões. Enquanto se iludem, não morre a esperança e são um pouco mais felizes.

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