Quando o dinheiro nas famílias não era muito e não dava para comprar café, consumia-se uma espécie de sucedâneo. Normalmente, comprava-se cevada, café de cevada. Que nem era café, nem era cevada. Essa necessidade das famílias ainda se mantém em muitos lares. Tenta-se enganar a verdade com a aparência dela.
Lembro-me de ver chocolateiras à lareira, encostadas às brasas, onde fervia dentro um líquido pastoso, de cor negra, muito semelhante à ferrugem das chaminés das lareiras pobres de gente pobre. Lembro-me de observar atentamente a chocolateira a ferver com aquela massa negra e espessa, à espera que subisse, mas que não transbordasse. Transbordava sempre. Havia sempre borras a transbordar da chocolateira. As mesmas borras que ficavam sempre no fundo das malgas de cerâmica lascada por onde bebíamos. Às vezes tínhamos de cuspir as borras que enchiam a boca. Eram azedas, mas com cheiro agradável.
E, por que razão as chocolateiras e as borras do café a transbordar e a derramarem-se no chão sujo e escuro das lareiras me fazem lembrar a escola?
Acordei assim, hoje, com a nostalgia das chocolateiras e das borras do sucedâneo do café, a imaginar a escola como uma imensa chocolateira a ferver e a verter borras negras. A imaginar a escola sucedâneo de outro produto. A imaginar a escola a transbordar borras, mas onde o cheiro não se consegue suportar.
Também li, algures, que alguns consideram a escola como uma família e eu só consigo ver borras a transbordar. Azedas e negras. A escola chocolateira a ferver e cheia de borras. A família em azáfama, à volta da mesa ou da lareira, a consumir essas borras, às vezes ensopadas com broa.
E assim se enganava a fome. E assim ficávamos felizes, a verter e a transbordar lágrimas negras com borras. E assim consumiamos o sucedâneo e à falta do verdadeiro, pelo menos gostávamos do cheiro.


Quando li o título, a palavra “chocolateira” fez-me pensar em algo que se usava na escola para fazer chocolate, portanto, um doce para os miúdos! Até imaginei uma caneca de chocolate espesso e bem quentinho para matar o frio nos dias de invernia. Nunca imaginei que noutros tempos era usada para fazer o contrário, algo azedo, e que ainda por cima era uma borra negra, como ferrugem, na qual se podia ensopar broa para matar a fome que, por sinal, para muitos, também devia ser negra!
Seguramente, e em muitos aspetos, a escola atual em nada se parece com a do passado: numas coisas é melhor, noutras coisas é pior. O dinheiro era pouco, mas fazia-se muito na escola. A escola representava a extensão da família, porque se acreditava que “era preciso uma aldeia para educar uma criança”. Atualmente, não há aldeias, as famílias andam sempre muito ocupadas a fazer outras coisas para ganharem o sustento, e para a maioria delas, a escola é apenas um lugar onde podem deixar os seus filhos para serem guardados durante o dia. Contudo, há que ver um lado bom da escola: ela passou a ser a aldeia e a família para a maioria das crianças, dos adolescentes e jovens.
Lembro-me de ter gostado muito de andar na escola. Lembro-me de ter aprendido coisas sérias e importantes, e a sério! E não foi só a tabuada que nunca esqueci! Algumas das muitas coisas sérias e importantes que aprendi foi ler e escrever sem erros, fazer contas “de cabeça” e depois no papel, e de usar uma régua, a imaginação e a criatividade. Respeitar os professores e cumprir as regras estabelecidas era o mínimo exigido, e a tolerância era mesmo “zero”! Aprender não era só um dever, mas também um gosto e uma brincadeira. Lembro-me de gostar muito de fazer teatro, de cantar e das saídas de campo para conhecer alguns tipos de folhas, árvores, plantas, aves e outros animais como o sapo, a rã, a minhoca, a lagarta, a borboleta ou os girinos. Muitas vezes, esperávamos que acabasse de chover para enfiar as galochas e ir chafurdar nas poças de água. Sujávamos as roupas e esfolávamos os joelhos de tantos tralhos, mas ninguém se parecia importar com isso! Desenhávamos e pintávamos quase tudo o que observávamos, fazendo as suas legendas e descrevendo tudo o que ouvíamos, víamos ou cheirávamos. Nem as moscas eram desprezadas! Bastava um copo ou um frasco e as coitadas andavam doidas, às voltas, sem nunca encontrarem a saída! Era macabro, mas isso fazia as nossas delícias! Que maldade! Mais tarde, dissecávamos rãs e os miúdos do porco, ou até uma sardinha! Outra maldade! Sacrificámo-las por gosto e curiosidade, as pobres cobaias, e ainda assim não lhes dávamos o eterno descanso! Lembro-me de visitas de estudo como a do Gerês, onde, pela primeira vez, vi trutas! Ou a “vacaria”, onde se ordenhavam as vacas e onde, a contragosto, lá provámos um golo de leite quente e cheio de espuma acabadinho de ordenhar. As vacas até nos olhavam de lado! Certamente não gostaram das carantonhas que fizemos em desagrado pelo seu precioso liquido. Mais tarde, fomos à “fábrica do leite” para aprendermos sobre a pasteurização e os iogurtes. Tudo em nome da curiosidade, do saber e do saber fazer, e bem!
Não havia chocolate quentinho no inverno como recompensa pelo bom trabalho e pelo bom comportamento, nem uma “chocolateira”, mas recordo-a como um lugar onde gostávamos de estar, muito respeitado, onde o que lá se fazia era verdadeiro e não uma farsa, onde sabíamos que nada nos era dado de graça, que o trabalho tinha um valor justo e que, no final, todo o nosso esforço e sacrifício tinha o sabor doce da conquista e da vitória. Até brincar era a coisa mais natural e genuína do mundo, o que incluía empurrões e caneladas! Nada que não se resolvesse com a máxima diplomática de “Quem vai à guerra, dá e leva.” Era um lugar onde começava o nosso futuro, mas também onde facilmente se percebia que cada passo mal dado no presente poderia comprometer esse futuro. Tudo dependia de ti, do teu esforço, do teu trabalho e de quanto acreditavas nos teus sonhos. Claro que “Transbordar borras”, ou fazer borradas, digo eu, custava alguns castigos, ora na escola, ora em casa, e agora até podemos dizer que alguns eram exagerados. O sabor podia ser amargo, e o cheiro, a esturro, mas tudo isso fazia parte do caminho do crescimento e da aprendizagem para a vida, com sentido de dever e de responsabilidade. Sim, havia pedras no caminho, e por vezes até eram mais do que pensávamos, mas lembro-me de o meu pai dizer que quem tropeça pode cair, e que isso pode fazer doer muito e chorar, mas se nunca tropeçar, nunca vai aprender a levantar-se.
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O teu comentário está uma delícia!!! E com esta pequena frase consegues resumir quase tudo
“onde o que lá se fazia era verdadeiro e não uma farsa”
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