Faltam professores e não me lembrava disso.


Sou filho e herdeiro das grandes massas de migração para Lisboa e de emigração para França. O meu pai sempre se considerou mais lisboeta do que parisiense e pertenceu a essa massa de gente forçada a deixar a terra e família na luta por uma vida digna. Sempre sonhou ter um filho ou uma filha professor. Conseguiu que ambos o fossem. A minha mãe também sonhava, mas alimentava outro sonho: que um filho fosse padre. Um sonho que morreu cedo.

Ser professor, mais do que qualquer outra coisa, representava conhecimento. Saber. Educação. Estudo. Eu queria ser tudo isso e hoje sou professor. Ainda o meu pai era vivo quando seguiu apaixonadamente as grandes manifestações de professores em Lisboa, sobretudo depois de 2008. Seguiu, com o mesmo amor pelos professores e pela escola pública, todas as outras grandes manifestações que se realizaram. Sempre solidário com os professores. 

O meu pai não era ministro nem deputado e também não frequentou a universidade. Sabia, não obstante, a importância do saber e do conhecimento. Todos os filhos e netos reconhecem que foi a maior fortuna que deixou à família. 

Se fosse hoje? Se esse homem fosse pai, hoje, ainda sonharia ter algum filho ou filha professor? Ele dizia-me: “não deixem morrer a dignidade.” Assistiu e teve perfeita consciência da grande derrocada da escola pública, da tristeza de ser professor e da desvalorização da ciência, do saber e do conhecimento. Assistiu, gozando de perfeita saúde, ao esquartejamento e desvalorização da escola pública e do professor. Também me perguntava: “e os alunos? Eles aprendem ainda alguma coisa?”

Parece que faltam agora muitos professores. Muitos alunos sem aulas a alguma disciplina. E muitas escolas empenhadas em concursos extraordinários na procura de novos professores. Como se os sonhos que produzem professores pudessem nascer num qualquer concurso frente a um ecrã de computador. Ou, como se os professores pudessem renascer porque um qualquer ministro até se lembrou de oferecer uns tostões para o gasóleo do carro ou para a renda da segunda casa.

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