A teimosia nem sempre produz os melhores resultados. Somos uma sociedade de teimosos. Foi o que eu concluí depois de verificar os efeitos nocivos, e muitas vezes mortais, do mau uso dos antibióticos. Estima-se que, no futuro, muitos milhões morrerão pela sua deficiente administração. E o que é que têm os antibióticos a ver com a escola?
Vamos por partes, porque nem sempre os apressados são os que chegam mais depressa. Atravessamos uma época da nossa História comum, de muitos retrocessos, simulados e vestidos com os tecidos caros do progresso, do sucesso, da inovação e da felicidade. Oferecem-nos tudo e dão-nos muito pouco, ou nada.
Com o progresso feliz, temos crianças na escola que já não brincam no recreio. Com o progresso feliz, temos crianças convidadas a “brincar” e jogar nas salas de aula. Com o progresso feliz, temos instalado o sucesso gratuito. Com o progresso feliz, temos instalado o maior facilitismo dos últimos cinquenta anos. Com o progresso feliz, temos instalada a arbitrariedade legal. Com o progresso feliz, temos escolas com menos e pior democracia do que antes do 25 de abril. Com o progresso feliz, temos instalada a indisciplina em muitas escolas. Com o progresso feliz, temos introduzido nas escolas as maiores aberrações, sob forma de projetos inovadores. Com o progresso feliz, instalámos o experimentalismo provinciano e saloio e abolimos o saber de experiência e ciência feito. Com o progresso feliz, assumimos a mentira e a aldrabice simulada da avaliação docente. Com o progresso feliz, temos alunos com tantas disciplinas, que nem conhecem o número e nome de todas elas. Com o progresso feliz, temos instalada a indisciplina em muitas escolas. Com o progresso feliz, queremos currículos adaptados aos territórios escolares como se o saber e a cultura geral também fossem regionais. Com o progresso feliz, queremos salvar a escola e a humanidade, sem humanidades, e com a pedagogia da literacia financeira. Em nome do progresso feliz, invadiram e atrofiaram com burocracia a vida dos professores. Em nome do progresso feliz, amesquinharam o saber dos professores e transformaram-nos em operários obedientes. Com o progresso feliz, temos escolas sem professores e professores que não querem escolas. Com o progresso feliz… já ninguém quer ser professor.
Quando todos esperávamos e desejávamos que a escola pudesse funcionar como o melhor antibiótico para tantos males do Homem e das sociedades, eis que, depois de tantos anos mal administrada, temos hoje uma escola sem produzir qualquer efeito significativo na qualidade de vida do futuro dos alunos, das famílias, dos professores e de todos nós, em geral. Uma escola que não cumpre a responsabilidade de escola, porque não educa na responsabilidade.

