Quando o ministro anunciou a disciplina de Literacia Financeira no currículo do ensino secundário, tocaram logo os alarmes na minha consciência de cidadania.
Diz, a Direção Geral de Educação, que serve para habilitar os alunos “como consumidores de produtos e serviços financeiros a lidar com a crescente complexidade dos contextos e instrumentos financeiros”. A única complexidade que me ocorreu foi a dos alunos poderem lidar com produtos financeiros. Quais alunos? Quais produtos? Os alunos consomem o quê? Produtos financeiros? Durante as dezenas de anos que já levo no ensino, eu já vi alunos consumirem muitas coisas, algumas até ilícitas. Produtos financeiros, nunca vi. A não ser que queiram fazer da escola o mesmo que fizeram com os CTT. Um banco.
E, vamos aos bancos. Comecemos pelo BES. Poderíamos começar pelo Banco Privado Português, ou pelo BPN, ou pelo BANIF ou por outro qualquer que arruinou muitas famílias portuguesas, roubando-lhes as economias de uma vida inteira dura de trabalho e reduzindo muitas delas a uma vida de pobreza. O BES, que arruinou o país e nos conduziu a todos a uma vida de sacrifícios. O BES, e outros, também responsáveis pelos congelamentos da função pública.
O problema foi a falta de literacia financeira? Com literacia financeira nas escolas teriam aprendido a lidar com os tais produtos financeiros postos no mercado de forma fraudulenta? Ou serve esta inovadora disciplina como produto de lavagem da falta de escrúpulos dos comerciantes de produtos financeiros que brincam com o nosso dinheiro?
Ou seja, a culpa não está nos bancos, nem nos banqueiros, nem nos restantes mercadores de produtos financeiros. A culpa é do povo ignorante que não estudou literacia financeira. Coisa parecida aos projetos de mindfulness introduzidos nas escolas e com origem no neoliberalismo financeiro e económico. Se não tens sucesso, a culpa é tua, não é da empresa, nem do patrão, nem do sistema, nem do teu salário miserável. A culpa é tua porque não estudaste e não te soubeste munir das ferramentas necessárias para teres sucesso.
A criação e introdução desta disciplina nas escolas pode servir muitos interesses. Seguramente não serve em nada os interesses dos alunos. É o mesmo que dizer a um aluno que pode aprender a jogar futebol sem bola e um dia poder ser outro Cristiano Ronaldo, neste caso, das finanças.
Fico com a sensação que seria mais útil para os alunos terem na escola uma disciplina que os ensinasse a não aceitar outra disciplina cujo efeito nas suas vidas não é superior ao de uma raspadinha.

