Não gosto de ditaduras. Não gosto, pronto. Deve ser porque tenho mau feitio, mas não gosto.
E também não gosto de ditadores. Pronto, não gosto. Não estou a pensar em Salazar, em Putin ou em Netanyahu ou Trump ou nos Trumpistas europeus todos, incluindo o nosso, porque, às vezes, já duvido se ainda somos europeus. Não gosto. Pronto, não gosto.
Também não gosto que me mandem mails a pedir-me para assinar e levantar a avaliação que me fizeram, porque antes ninguém se lembrou de mim nem me pediram a opinião sobre essa mesma avaliação. Só a opinião, não pediria nem exigiria mais. Só mesmo isso. Não gosto. Pronto, não gosto.
Não gosto de abrir uma torneira, quando estou com sede, e ter de beber água com ferrugem. Não gosto. Nunca gostei do sabor da ferrugem na água. Gosto mais de continuar com sede. É mais agradável do que o sabor da ferrugem. Não gosto de ferrugem. Não gosto. Pronto, não gosto.
Não gosto de ter de pagar para, depois das férias, poder continuar a trabalhar. Não gosto. Pedem-me uns miseráveis cêntimos para poder continuar a trabalhar no meu local efetivo de trabalho. Não gosto. Não gosto de miserabilismos. Podiam pedir-me uns euros valentes e talvez até gostasse mais. Uns míseros cêntimos, não gosto. Pronto, não gosto.
Não gosto de ter de pagar para poder pagar para tomar um café. Não gosto. Gostava mais de poder pagar só o café. Também não gosto de andar com uma chávena, um pires, uma colher e um pacote de açúcar na mochila para poder tomar um café depois de 90 minutos a trabalhar numa sala de aula. Não gosto. Nem o café me cai bem. Não gosto. Pronto, não gosto.
Não gosto de carregar no botão que liga um computador e o computador não ligar. Não liga, pronto, não liga e eu não gosto. Não gosto. Também não gosto quando esse computador liga e, segundos ou minutos depois, desliga. Desliga sozinho, sem me pedir a opinião se podia desligar ou não. E mostra umas caretas estranhas e feias no ecrã. Não gosto. Pronto, não gosto.
Não gosto de olhar à minha volta e ver crianças muito pequenas carregadas com um fardo às costas a que chamam mochilas. Carregadas e contorcidas, com todo o tipo de material escolar, porque a escola está vazia e têm de ser elas a enchê-la com os materiais que trazem de casa. Não gosto. Pronto, não gosto. Já não me preocupa o peso da minha mochila. Sou adulto, com saúde, e ainda com alguma energia. Do peso das outras não gosto. Não gosto. Pronto, não gosto.
Não gosto de abrir a porta de uma casa de banho, porque todos precisamos de ir à casa de banho, e ficar agoniado com o que se abre à frente dos meus olhos. Não gosto. E não gosto de ter de voltar para trás porque me sinto agoniado. Não gosto. Nem de lavar as mãos e não ter um pedaço de sabão à mão. Não gosto. Nem de lavar as mãos sem sabão e olhar à volta e não ter um pedaço de pano ou papel onde poder secar as mãos. Não gosto. Pronto, não gosto.
Não gosto que me mintam e me enganem. Não gosto, pronto. Não gosto que prometam e não cumpram. Não gosto que prometam que me vão pagar uns bons anos que trabalhei e ficaram congelados e depois ter de esperar, sem mais datas marcadas, porque nenhuma das anteriores foi cumprida. Não gosto. Pronto, não gosto.
Este governo acabou de afirmar que iria “instituir mecanismos de reconhecimento do mérito, da inovação e do impacto do desempenho no contexto do serviço e/ou organismo e na administração pública”.
Fico expectante e com muita ansiedade. Talvez me calhe, a mim, o mérito de não gostar de tanta coisa tão inovadora.

