A pancada e a doce ilusão

Acreditem ou não, os últimos anos de intensa luta dos professores, uma intensidade sem precedentes, teve como principal alavanca e mola de motivação, a defesa da escola pública. Se a defesa aguerrida e sem tréguas da escola pública coincidiu com interesses de classe, como foram os anos de trabalho congelados, não foi mais do que isso mesmo, coincidência.

Se queremos uma família saudável e os filhos com uma vida feliz e confortável, não podemos andar a dar pancada nos pais. Se queremos professores felizes e motivados, capazes de transmitir bem-estar e conhecimentos aos alunos, não podemos andar a dar-lhes pancada todos os dias. Não existe satisfação e progresso com pancada. A pancada é o anti progresso.

Durante largos anos, depois do 25 de abril, eu acreditei que a escola e a vida seriam possíveis sem pancada. Julguei que a pancada estivesse definitivamente afastada de qualquer tipo de pedagogia ou progresso. Enganei-me. Estava errado, como errei em muitas outras análises. Julguei, por exemplo, que quando me reformasse seria uma tragédia na minha vida. Sempre trabalhei com amor e não me imaginava a perder a família da escola. Sim, estava errado. O amor permanece, mas deixou de ser tragédia.

Depois de tanta pancada, os seres humanos cansam-se, desmotivam-se e desistem. Uma larga massa de professores, cansados de tanta pancada, desistiram e já só anseiam pelo último dia em que possam sair da escola, sem ter de regressar. Pancadas de todas as dimensões e feitios, provenientes de muitas e divergentes latitudes, algumas delas inimagináveis há poucos anos atrás.

A ausência de democracia nas escolas é das chicotadas que mais têm doído. O facilitismo na escola, a ausência de responsabilização, a liquidação do valor do trabalho, do esforço, do sacrifício e do empenho são mais algumas das grandes pancadas que nos têm feito gemer. A simulada e despudorada avaliação dos docentes é daquelas pancadas que doem sem nunca deixarem de doer. Deixam um rasto radioativo no corpo e na alma e não há lenitivo para tal dor.

A escola pública iniciou um processo de negação e de cegueira, com a conivência e complacência de muitos professores, muitos diretores, muitos encarregados de educação (sobretudo pela organização que os representa) e com a responsabilidade de governos e ministros de educação medíocres, muito medíocres.

Anularam os professores, anularam o conhecimento e anularam o orgulho dos alunos. Façam o que fizerem, roubaram-lhes a magia da descoberta, o encanto e a alegria da vitória, num jogo jogado com o resultado determinado antes do início do jogo. Morreu nos alunos a alegria e a emoção de ganhar o desafio da escola. O sentimento do desafio e o prazer da vitória deslocaram-se para outros domínios.

Escolas públicas cheias de palavras ocas. De conceitos ocos. De mensagens ocas. De pedagogias ocas. Projetos, projetos, mais projetos, todos piloto, todos experimentais, todos com aprovação garantida. O piloto será para simular ciência, talvez. Escolas cheias de inovações. A inovação, o novo divino, a profecia da felicidade. O vazio da inovação e da inclusão numa escola prenhe de ilusões e de burocracia. E de mentira.

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