A desadequação do discurso oficial, com a realidade da organização das escolas chega a ser cómico. Se não fosse tão triste o confronto diário dos professores com o seu espaço de trabalho, eu diria que este seria o melhor estúdio cinematográfico para a realização de filmes de comédia.
Os alunos chegam à escola às 8.30h e qual é a primeira aula que muitos deles têm no horário? Educação física, 45 minutos. Acabaram de se vestir e a primeira coisa que fazem quando chegam à escola é despirem-se. Correm para os campos de desporto e, alguns, os mais atrasados, quando chegam, não têm muito tempo para ver o professor, porque é preciso regressar, tomar banho e vestir-se. Às 9.15h têm de estar noutra aula. Regra geral, muitos chegam atrasados, por mais que o professor de EF se esforce para que não se atrasem.
A aula seguinte é de 90 minutos. Nunca consegui encontrar uma fundamentação convincente, resultado de um qualquer estudo, que sustente aulas tão longas a crianças tão pequenas. Por mais que o professor faça o pino, as crianças cansam-se e começam a perder o poder de concentração muito antes dos 90 minutos. Trabalhei muitos anos em escolas no estrangeiro e nunca vi crianças de 10, 11 ou 12 anos com aulas tão longas.
Também nunca descobri o inventor de aulas de 90 minutos, mas partidas a meio com 45 minutos duma disciplina e outros 45 de outra disciplina completamente diferente e sem os alunos sairem do lugar onde estão sentados. O professor vem de uma turma, chega a outra e tem de mandar o colega embora, porque está na hora de começar a aula da sua disciplina. O colega sai e corre para outra turma onde outro colega também está à espera que ele chegue, porque tem de ir para outra turma e já está tudo atrasado. Os alunos, coitados, todos entusiasmados com a matemática, têm de perder rapidamente o entusiasmo porque agora têm de se entusiasmar com a disciplina de História.
Os intervalos de 10 ou 15 minutos reduzem-se a pouco mais de 5 minutos. No final de uma aula é preciso arrumar a mochila toda, porque têm de a transportar para outra sala, muitas vezes a uma distância considerável. E o peso da mochila não é assim tão desprezível. Eles gostam de mostrar que são valentes, mas eu já tomei o peso a muitas e até já as pesei. Nunca vi aquela senhora da CONFAP, que costuma falar para as câmaras de tv quando vai a conduzir, tentar aliviar este fardo das costas dos alunos. Os professores também têm de correr com a mochila às costas ou correm o risco de não ter tempo para tomar um café.
E, experimentem perguntar a um aluno de segundo ou terceiro ciclos, quantas disciplinas têm. A maioria, ou próximo disso, não sabem ao certo. Não sabem. São tantas, que se enganam a contar. E perguntem-lhes no dia seguinte, depois de terem recebido as avaliações trimestrais ou semestrais, que notas é que tiveram. Também não sabem de todas. Sabem algumas. Muitos, sabem de muito poucas. A autonomia, a inovação, a flexibilidade e a inclusão a funcionarem no seu melhor.
Num país onde há sempre coisas muito importantes e urgentes a discutir e decidir, até fica mal aparecerem professores maçadores como eu a falar e escrever sobre coisas sem importância nenhuma. Mas, se não sabem decidir sobre as grandes questões, resolvam pelo menos as pequenas.

