Assisti a semana passada a parte de uma sessão de uma seita religiosa – da qual não revelo o nome – na Marinha Grande. Era um acontecimento especial para os seus membros, porque o principal orador era um destacado e muito importante dirigente daquele grupo, supostamente religioso.
Menos de uma centena, entre mulheres, crianças e homens. Antes do início da sessão já eu pensava que não iria resistir até ao fim, porque, para meu grande espanto, começaram a desfilar pessoas erguendo a bandeira portuguesa, brasileira e de Israel. Em simultâneo, fui atropelado por um dilúvio de pensamentos e emoções que me invadiram impiedosamente. Onde estava eu? Numa sessão religiosa ou numa sessão de política? O que faziam ali aquelas bandeiras?
Resisti. Não tardou muito a ouvir do especial orador que os israelitas eram filhos de Deus. O povo eleito de Deus. Deixei de o conseguir ouvir e o mesmo impiedoso dilúvio me invadiu os pensamentos.
Qual Deus? Não precisamos de estudar a história das religiões para sabermos que sempre houve e continua a haver muitos Deuses por esse mundo fora. Não consegui compreender qual era o Deus que estava ali a ser invocado. E os filhos são só aqueles, os israelitas? De quem são os outros filhos? Não têm pai? São filhos órfãos? Filhastros? Ou tratar-se-á de um Deus que discrimina entre filhos e enteados? E porquê eleitos de Deus? Os outros que não são eleitos, são o quê? Rejeitados? Deus, um qualquer Deus, também rejeita uns e elege outros? Porquê?
Abandonei a sessão. Não podia fazer perguntas e decidi abandonar. Percebi rapidamente os fins a atingir com aquela dita sessão religiosa. O apoio à guerra de Israel com a Palestina e com o Libano. Não porque eu ataque uns ou defenda outros. Não porque eu partilhe ou não partilhe das ideias de uns ou de outros. Francamente, não partilho nada de nenhum. Não defendo nem ataco judeus ou muçulmanos. Respeito-os a ambos.
O que eu não posso respeitar, nem nunca respeitarei, é a falta de respeito daqueles que não respeitam a vida humana, seja ela de quem for. Este grupo de religiosos apoia a guerra. Este grupo de religiosos apoia os bombardeamentos e a morte indiscriminada. Apoiam a fome, a doença e a morte em nome de um Deus.
Como não sou nem israelita nem eleito, senti-me ameaçado. Estaremos todos ameaçados quando alguém ergue a voz em defesa da morte dos outros e ficamos calados. Foi por isso que escrevi.

