Todos gostamos de ganhar dinheiro. Quem é que não gosta de ter muito dinheiro? Não sei se será a melhor estratégia para conseguir a felicidade. O filósofo Platão acha que não. Na sua opinião, para atingirmos a felicidade devemos começar por abandonar o mundo material e o mundo das ilusões. Mas, isso é um problema de cada um e eu não trago aqui soluções. Também não tenho lá muito jeito para negócios.
Durante muitos anos, as únicas empresas que negociavam e prometiam a felicidade, o bem-estar e a fortuna, eram empresas religiosas, geridas por empresários, ao mesmo tempo embaixadores de Deus nesta terra de vale de lágrimas. Não sei se cumpriam ou não com as suas promessas, mas sei que clientes nunca lhes faltaram.
Os empresários, menos religiosos e mais laicos, associados às Universidades, talvez para dar um ar mais sério à coisa, entraram também neste negócio, aparentemente, muito lucrativo. Descobriram nas escolas um verdadeiro filão de ouro do mais puro quilate. O negócio do bem-estar emocional e da felicidade.
Chama-se Por ti – Programa de Promoção e Bem-Estar nas Escolas. E quem são estes empresários tão preocupados com a falta de bem-estar nas escolas?
Confesso que tive de ler várias vezes para me convencer que não tinha lido mal. O “Por ti” é financiado pela Z Zurich Foundation, gerido pela Zurich Portugal e Missão Azul, e implementado pela EPIS – Empresários Pela Inclusão Social, em parceria com a Unidade de Psicologia Clínica Cognitivo-Comportamental (UPC3) da Universidade de Coimbra.”
Nos últimos anos não têm faltado estudos, de tudo e mais alguma coisa, promovidos e financiados por ricas Fundações de empresários ricos. Parece que estes empresários, de súbito, e vá-se lá saber porquê, decidiram ficar na História, não como exploradores do trabalho de outros, mas como grandes mecenas, financiadores e promotores do bem-estar emocional e da felicidade de todos os portugueses. Principalmente, daqueles que todos os dias frequentam os estabelecimentos de ensino.
Este programa, a julgar pelas percentagens de sucesso que apresenta e pelo número de clientes que já o frequentaram, é um verdadeiro caso de estudo. Teve início em 2022 e parece que vai terminar em 2026. Talvez para ser substituído por outra qualquer seguradora que assegure a felicidade e o bem-estar emocional nas escolas.
Senhores empresários, Senhor Ministro da Educação, Senhores Diretores de Escolas, queiram desculpar a minha frontalidade – estão mesmo preocupados com todos estes males que atormentam as nossas escolas? Fazendo fé em tanta generosidade, deixo aqui algumas sugestões, não me levem a mal.
Comecem por contratar mais psicólogos para as escolas. Nós não sabemos bem porquê, mas cada vez temos recebido mais alunos muito maldispostos. Ficaríamos todos muito agradecidos.
Como também se mostraram muito preocupados com a saúde mental dos assistentes operacionais, façam o mesmo que sugeri para os psicólogos. E, se conseguissem melhorar os seus salários miseráveis, talvez a saúde mental também melhorasse qualquer coisa.
Para os professores, por favor, falem com o senhor novo Ministro e peçam-lhe que revogue, para toda a eternidade, a palhaçada dos mega e giga agrupamentos escolares. Agora, chamam-lhe, pomposamente, Unidades Orgânicas. Digam também ao Ministro que os professores não estão nada satisfeitos e nunca alcançarão essa promessa de felicidade e bem-estar enquanto não puderem trabalhar numa escola democrática. É que nós não gostamos mesmo nada de autocracias e não é isso que ensinamos aos nossos alunos.
Já me esquecia. Provem que são investidores e empresários sérios e lembrem o Ministro que estamos todos fartos de ver eternamente os mesmos diretores nas Unidades Orgânicas. Nós já sabemos o que são eleições e, nem no tempo da outra senhora, esta coisa acontecia. É que estamos mesmo fartos e já anda muita gente a pedir baixas médicas. Além disso, os professores gostam mais de diretores eleitos democraticamente.
Tinha, ainda, um relambório interminável de coisas que nos deixariam a todos muito mais felizes. Por exemplo, computadores para todos e que funcionassem e houvesse sempre internet. Ou turmas com menos alunos. Ou aquecimento no inverno e arrefecimento no verão. Cadeiras e secretárias a sério e um bocadinho mais confortáveis. Casas de banho dignas, horários de trabalho mais de acordo com a lei, um pouco menos de burocracia arcaica e ridícula…
Se o vosso programa tem esse nome tão bonito, “Por ti”, façam isso por nós.

