A visibilidade que não se vê
Não se vê, nem a querem ver. Quando um serralheiro terminou uma obra cá em casa, eu olhei e disse-lhe:
– O senhor é um homem de sorte.
– De sorte? Então, porquê? – perguntou-me ele.
– Porque o senhor quando termina uma obra pode mostrar ao mundo o resultado do seu esforço e do seu trabalho. Olhe, eu já trabalho há mais de trinta anos e não consigo mostrar nada.
Que um serralheiro olhe para mim sem entender muito bem o que eu lhe quis dizer, acho absolutamente normal. Que um colega professor ou um diretor, um ministro ou um secretário de estado, tenha a mesma atitude, isso eu já não consigo compreender. Nem muito menos perdoar.
Diz o povo, e muito bem, que o maior cego é aquele que não quer ver. Pois bem, considero, e posso concluir, que a atual escola portuguesa é uma escola de cegos.
Parece, muitas vezes, que o melhor professor é aquele que tira e divulga a melhor fotografia. Aquele que produz o melhor vídeo de uma qualquer e normal atividade. Aquele que redige o melhor relatório e pouco importa se tem correspondência real ou não. Aquele que tem uma voz mansa e sabe dizer ámen quando se realizam as ações de graça. Aquele que se ajoelha, mesmo quando sabe que está a ser humilhado e maltratado. Aquele que nunca diz não aos projetos e aos clubes, imaginados para todos os gostos. Aquele que redige uma ata com vinte ou trinta páginas. Aquele, sobretudo aquele, que nunca questiona e nunca tem opinião sobre nada. Essencialmente, nunca tem opinião sobre aquilo para o qual estudou e trabalhou toda a vida. Porque, hoje, já está obsoleto. Amanhã, descobriu-se outra inovação que ontem já deixou de o ser.
Um professor, entra numa sala de aula, e noutra, e noutra, e noutra… todos os dias. E todos os dias os seus olhos contemplam outros olhos, dezenas ou centenas de olhos que esperam do professor conhecimento, paciência, compreensão, atenção, respeito e tudo o resto que muitos desses olhos nunca puderam sentir em casa. E o professor entrega-se, dá-se aos seus alunos sem esperar receber recompensa em troca.
São aulas. Cinquenta ou noventa minutos. Agora e depois e outra, outra vez, todos os dias. Todas as semanas e meses e anos. Muitos, muitos anos num combate sem fim e na esperança que nasçam dali homens, mulheres e cidadãos do futuro.
O professor, vítima da cegueira deliberada do poder. Aquele poder de secretária e escritório que já não sabe o que significa entrar numa sala de aula cheia de alunos e enfrentar os olhares expectantes, também eles, talvez esperançosos de um dia poderem vir a ser os homens e as mulheres do futuro.
O poder que nega e omite o trabalho da sala de aula e o vende à visibilidade. A visibilidade que não produz, mas convence. A visibilidade que furta à escola a sua verdadeira razão de existir, enquanto se transforma em máquina de ilusões. A visibilidade cega. A visibilidade daqueles que fazem da escola um pântano onde, de forma brilhante, nos enlameamos todos os dias.

