302 freguesias a desagregar é, mais ou menos, o mesmo número de agrupamentos e mega agrupamentos de escolas. Então, por que não desagregam também os agrupamentos e mega agrupamentos de escolas? Para esta pergunta, eu já tenho a resposta há muito tempo. E há agrupamentos com muito mais quilómetros do que muitas freguesias e, até, do que muitos concelhos.
Serão todos muito sábios e inteligentes, e só os professores é que são um bando de “chatos” e ignorantes? É a mensagem que o poder central e intermédio pretende passar. Dizem que foram ordens da troika – lembram-se da troika? – que obrigaram às fusões administrativas. O ministro José Relvas não se fez rogado com as freguesias e a sinistra ministra Maria de Lurdes Rodrigues e o seu colega Nuno Crato, também não. Todos acharam que desobedecer à troika seria o mesmo que desobedecer às penitências do Vaticano.
Fazemos todos parte do mesmo país, com governos que nós apoiamos, que considera que as freguesias são mais importantes do que as escolas. Caçar votos pelas freguesias rende mais do que proporcionar aprendizagens de qualidade e formação de cidadãos em escolas públicas. É muito idêntico a considerar uma taberna, onde se bebe uma cerveja ou um copo de tinto, mais importante do que um centro de saúde para tratar doentes. Desagrupar freguesias é realmente urgente e relevante? Traz mais centros de saúde, escolas do 1° ciclo, bancos, farmácias, bibliotecas, correios, ou novas acessibilidades? Vai contribuir para melhorar as condições de vida dos cidadãos? Não sei.
Mas sei que a criação de agrupamentos e mega agrupamentos de escolas, a que agora, desavergonhadamente, chamam Unidades Orgânicas, foi o primeiro, de outros passos em falso, que desqualificou e desacreditou a escola pública. Mais do que isso, muito mais do que isso: foi o disparo da primeira bomba de canhão para a perda de identidade e desmotivação no trabalho, tanto de professores como de alunos.
Imagine que é jogador do Benfica e luta pelo seu clube, quer que o seu clube ganhe e tenha os melhores jogadores. Já imaginou? Pois, mas agora também tem de jogar pelo Sporting, pelo Porto, ou qualquer outro clube e tem de estar apaixonado por todos. Conseguia?
A escola é um organismo vivo. Uma espécie de formigueiro onde todos se movimentam. Mas de pessoas. Pessoas de muitas idades, com muitas culturas e interesses divergentes. Os conflitos são naturais. Os alunos necessitam de constantes respostas a perguntas e problemas próprios da sua fase de crescimento e aprendizagem. Os professores também precisam de respostas. E quem é que pode responder? Onde é que estão os órgãos dirigentes? O professor, o aluno, pode contar com eles?
Imagine, imagine um pai com muitas famílias. Ou uma mãe com muitas famílias. Uma família com dois filhos aqui, outra com três ou quatro filhos a dez quilómetros, outra com mais dois filhos a vinte quilómetros, e muitas outras, espalhadas ao acaso. Acredita que conseguia gerir bem as famílias todas? Conseguia dar a mesma atenção a todos os filhos? Conseguia responder, ao mesmo tempo, a um filho que pede uma coisa, outro que pede outra, e outra e outra… conseguia? É assim que os nossos filhos estão a ser educados, ou deseducados, nas escolas.
Os responsáveis pela boa gestão de uma escola, não podem estar ausentes. Pais ausentes, educam filhos como todos sabemos. Não se educa na ausência. A educação exige presença. Presença diária e constante. Os agrupamentos e mega agrupamentos de escolas, educam na ausência. Os gestores podem trabalhar muito, preencher muitas grelhas e passar horas e dias agarrados a um computador e, às vezes, sem tempo, até, para gozo de férias. Mas não estão onde deveriam estar e cumprem com o acessório, em prejuízo do essencial.

