Por acaso, tem vossa excelência conhecimento de que já esgotei o plafond da solidariedade, até ao meu último dia de aulas? O orçamento solidário não dá para mais, por muito que transborde de boa vontade, senhor ministro.
Sabe vossa excelência que, só em juros, a minha solidariedade com o seu ministério já me renderia o suficiente para antecipar a minha reforma uns bons meses ou anos?
Sabe vossa excelência que, desde 2005, não tenho feito outra coisa que não seja trabalhar nas suas escolas em regime parcial de solidariedade?
Tem vossa excelência conhecimento do montante da sua dívida comigo, com o tempo solidário que lhe tenho prestado, desde o dia 1 de setembro de 2024? Senhor ministro, não estou enganado na data, ou já não se lembra? Não foi vossa excelência que, frente às câmaras de televisão, em horário nobre, afirmou que os professores, caso preenchessem os seus requisitos, iriam começar a recuperar o tempo de trabalho, que solidariamente prestaram nas escolas?
Oiça senhor ministro, eu fui solidário e preenchi todos os requisitos que vossa excelência me exigiu. O senhor ministro tem conhecimento que, eu e muitos milhares de trabalhadores como eu, ainda não recuperámos coisa nenhuma, seis meses depois da sua promessa? Tem consciência do estado de motivação que desperta nos professores, quando pede aquilo que não sabe dar?
Onde está a sua solidariedade, senhor ministro? É só uma obrigação dos professores? Nunca ouviu o povo dizer que, quem não tem dinheiro, não alimenta vícios? Ou o problema nem sequer é o dinheiro, mas, antes, o total desrespeito, por não querer pagar a quem trabalha?
Bolsa de professores voluntários, nomeados pelo diretor, para corrigir provas de ensaio, porque nem tem a certeza e quer verificar se há computadores nas escolas, suficientes e a funcionar para futuros exames em formato digital? É isto, ou percebi mal, senhor ministro? É que bastava um toque de telefone. Quer o meu número?
Sabe, também fiquei na dúvida. O senhor ministro disse mesmo, voluntários nomeados pelo diretor? Parece que foi mesmo isso que li. E olhe que ainda não estou incluído nas estatísticas de iliteracia de compreensão e interpretação. Voluntários nomeados pelo diretor, senhor ministro? Que quer o senhor dizer com isto?
Voluntários à força? Não brinque com coisas sérias, senhor ministro. Os professores já são adultos.
Senhor ministro, antes de aceitar ser ministro, o senhor já deveria ter tido conhecimento que os professores estão cansados de ser solidários. Cansados, senhor ministro. Desta vez, terá de desculpar, e vou ser franco consigo: não quero ser solidário. Olhe, jamais pensei que tivesse de afirmar, assim, categoricamente: não, não quero ser solidário.
Só tenho uma recomendação a fazer-lhe, e, de certeza que vai resolver o problema da correção das suas provas de ensaio – convoque os seus camaradas da CNE. Estou certo de que irá encontrar a solidariedade que tanto procura.


Uma opinião sobre “Solidária é a sua tia, senhor ministro da educação.”