Parece que sim. De acordo com a certeza de muitos dos alunos que frequentam as nossas escolas, Deus criou o mundo. E Deus cura as doenças. E Deus faz milagres. E Deus é infinito e maior do que todas as coisas. A Terra é esférica e perfeita, por isso foi Deus que criou a Terra. E os Gregos e os Romanos eram doidos e burros porque acreditavam em muitos deuses.
Às vezes conhecemos melhor os alunos depois da aula ter terminado ou nos intervalos, no recreio da escola. Eles perguntam-nos e, pessoalmente, eu gosto de falar com eles. De um modo geral, são alunos com boas capacidades cognitivas e alunos simpáticos. Mas fazem-nos perguntas muito pouco habituais há alguns anos atrás. De certo modo, eu acho estranho. Porque deve haver qualquer coisa que me está a passar ao lado. Ou andarei distraído?
Um professor sério, tem a responsabilidade de entregar aos alunos a cana para pescar e não o peixinho já prontinho a consumir. Lançar questões e apresentar desafios. Em poucas palavras, capacitar os alunos de um espírito reflexivo, analítico e crítico. Só assim os ajudaremos a desenvolverem sentido de autonomia, gosto pelas aprendizagens e pelo conhecimento e preparados para outros desafios no futuro.
É natural, e até saudável, que os alunos exponham os seus pontos de vista e as suas crenças. Mas, uma coisa é uma crença, outra totalmente diferente, é um facto científico. Quando a paixão por uma qualquer crença ou religião é superior à paixão e amor pela ciência, estamos a condenar a nossa vida, e a dos outros, ao obscurantismo e fanatismo medieval. Menosprezar a ciência e o saber científico é proibir o progresso e a possibilidade de uma vida com mais qualidade. O que seria de todos nós, hoje, sem a medicina?
É frequente alguma arrogância e fanatismo na forma como alguns alunos expõem os seus argumentos contra a ciência. Esta semana foram cortadas muitas verbas à investigação científica em Portugal. Desde que tomou posse, Trump, ainda não cessou de atacar as universidades e a investigação cientifica.
A escola pública tem de se afirmar como um espaço de ciência e conhecimento. Nunca como um espaço de crenças. Para isso existem outras organizações. Giordano Bruno foi condenado pela Inquisição católica e assassinado numa fogueira, em Itália, pela razão fundamental de defender a teoria heliocêntrica, de acordo com a qual era a terra que girava em torno do sol e não o contrário, no dia 9 de fevereiro do ano de 1600.
Temos de ouvir os nossos alunos e temos a legítima obrigação de lhes explicar o valor fundamental do conhecimento científico. A mesma obrigação e legitimidade é extensível a todos os encarregados de educação. O resto é com cada um.

