Dia da Criança em Gaza

Andei dois meses em contactos sigilosos para conseguir entrar em Gaza no Dia Mundial da Criança, 1 de junho de 2025. Descobri que estava cansado de conviver com pessoas adultas muito cheias de ressentimentos e com crianças muito cheias de protestos. Precisava de um pouco de paz e de falar com crianças que ainda fossem crianças.

Estamos no século XXI. Levava comigo esta ideia que não podia esquecer. Estava no século XXI. Eu sabia que era importante não esquecer esse pormenor. Quando entrei, estava fora do tempo e não encontrei tempo algum. Pedi ajuda ao meu intérprete, mas nem ele conseguia compreender em que tempo estávamos. Compreendi eu que tinha entrado num tempo semelhante ao dos buracos negros onde também não há tempo. Para não perder o Norte, ainda comparei com o tempo da peste negra do século XIV. Erradamente. Mas isso só descobri depois.

Ainda não tinha percorrido um quilómetro a pé quando perguntei ao meu amigo egípcio onde é que estavam as pessoas e onde é que poderia encontrar crianças. Pediu-me para continuarmos e aconselhou-me, pela milésima vez, para ter cuidado onde punha os pés. Também não havia chão. Não havia nem tempo, nem chão. Buracos. Buracos negros do tempo e buracos de pó das bombas. Continuámos e não caí em nenhum.

Cerca de seis quilómetros à frente, eu já estava cansado e ainda não me tinha cruzado com um ser vivo. Os únicos seres vivos éramos nós. Também não vi casas ou outros animais vivos ou mortos. Dizem, lembrei-me nessa altura, de que não há pássaros em Sobibor. E não há. Eu já lá estive e confirmei com os meus próprios olhos. Ali, em Gaza, também não havia pássaros ou outros seres viventes. Havia destruição e caos. Buracos negros do tempo e muito pó da terra desfeita por máquinas gigantes que eu não vi.

Cada passo dado era um pesadelo vencido. Já não sabíamos onde estávamos. Eu tinha perdido o Norte. Naquele lugar do mundo também não havia pontos cardeais. O sol tinha sido engolido pela poeira e pela negrura dos buracos. Esperámos pela noite. Talvez nos pudéssemos orientar pelas estrelas. A noite foi nossa amiga, mas não vimos estrelas. Naquela terra não havia estrelas. Também não havia estrelas.

Comecei a arrepender-me de ter entrado naquela aventura louca quando nesse preciso momento vislumbro umas sombras em movimento. São pessoas, vou encontrar crianças e vou falar com elas, pensei eu, ingenuamente. Mas eram só sombras. Aproximei-me. Deviam ser mesmo só sombras porque quando as chamava elas não ouviam e quando as tentava agarrar elas já não estavam lá. 

Desanimado, acordo no dia seguinte de madrugada com o estrondo do fim do mundo. Eram bombas a cair do céu. O meu intérprete fugiu e nunca mais o encontrei. Fiquei imóvel. De susto e de medo. Eu não devia ter vindo. Nesta terra de buracos e pó negro, sem tempo, sem estrelas e sem Norte para nos orientarmos só o demónio conseguiria sobreviver. O próprio demónio desejaria outro inferno.

Regressei sem encontrar pessoas. Nao havia crianças. Onde estariam elas?

Não percebi por que razão é que dizem no ocidente cristão que foi Deus que criou as pessoas e que as crianças são anjos. Só consegui confirmar a grande mentira de que também eu fui vítima. Deus pode ter criado o mundo e os Homens onde houvesse tempo e chão. Ali não foi de certeza. Não havia tempo nem chão. Nem estrelas. Onde estariam as crianças de Gaza?

2 opiniões sobre “Dia da Criança em Gaza

  1. “Estamos no século XXI” e a Humanidade continua Desumana! Acreditas que fui acusada (mesmo assim) por uma mãe que disse que a filha não gostava das minhas aulas (Cidadania e Desenvolvimento), porque lhes falei da situação de Gaza ou quando lhes relembrei do holocausto?! São alunos do 7.º ano (Direitos Humanos). Portanto, está tudo dito. É lá longe, no espaço ou no tempo. O que interessa é brincar aos trabalhinhos. Eu continuo e não abdico de me chocar. As imagens de Gaza, que me chegam pelo ecrã da televisão, vejo-as turvas… as lágrimas caem de revolta. Como caem quando vejo a desumanidade em tantos pontos do mundo! A minha disciplina é o mundo. Os nossos meninos aborrecem-se com estas duras realidades, é mais interessante ver o “mundo belo” das redes sociais, criado e manipulado.
    Obrigada por esta partilha!

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  2. E, se vives a tragédia e a matança a céu aberto daquelas pessoas, és logo acusada porque não vês as outras tragédias noutros lugares da terra.

    Tem sido recorrente a crítica: e as crianças da Ucrânia? Uma coisa eu também já concluí. Se fores à Ucrânia e esceveres sobre as crianças da Ucrânia, essas mesmas pessoas não te perguntam: e as crianças de Gaza?

    É um fenómeno estranho que eu só consigo explicar pela lavagem ao cérebro da nossa comunicação social.

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