O desastre pedagógico 

Todos somos culpados. Que ninguém lave as mãos que tanto inflamam as almas daqueles que condenam Pilatos. Somos todos Pilatos. E temos todos as mãos bem lavadas, de uma brancura suja, encharcada nas mesmas águas da nossa consciência coletiva. 

Já não somos floresta. Somos todos uma árvore nua e solitária. Vergamos ao vento conforme as conveniências e, não me digam nada, não é nada comigo, sozinho não posso fazer nada, tenho mais em que pensar, o meu filho está na escola, tenho de ir trabalhar, deixem-me trabalhar, porra, tenho de fazer o jantar, o meu marido só faz asneiras na cozinha, tudo à pressa e eu também não tenho tempo.

Estive nove horas no corredor do hospital, à espera, sempre à espera que chegasse a minha vez, e ainda tenho de passar pelo supermercado e hoje já não posso, felizmente não era nada de grave, mas ainda faltam uns exames, depois dizem que telefonam, o meu filho já vem sozinho da escola, ainda bem, mas dizem por aí que não é seguro, já não há segurança, eu nunca vi nada, mas se dizem é porque deve ser verdade e hoje já não consigo ver o episódio da minha telenovela. 

A minha filha não me larga, desde que chego a casa, já bem perto da noite, sempre com a conversa que o professor marcou trabalho de casa e ela não sabe fazer e eu às vezes também não, raios partam aqueles professores, se tivessem filhos iam saber o que a vida custa, mas eu vou à escola, vou vou, eu vou à escola e eles vão ficar a saber que não tenho tempo para os aturar, e marquem trabalhos de casa aos netos, são todos uns velhos, já esqueceram que também foram pais.

Era o que mais me faltava, mas os professores estão na escola para quê? Não lhes pagam, não? Então vão chatear para outro lado e se te voltam a dizer que tens insuficiente, eu vou outra vez à escola porque isso está mais do que bom e quando eu tinha a tua idade não fazia melhor. Eles, se te derem negativa, descansa filha, que a tua mãe não se chame pelo nome da tua avó, porque negativa a essa disciplina que venha o primeiro professor a ter coragem. Descansa filha, e vai tomar banho e quando deixares o telemóvel vai dormir.

Para o ano, se for preciso mudas de escola. O que é que estás a dizer? Despacha- te, ou vais chegar atrasada outra vez e ai do professor se te marca falta. Fica descansada filha, logo já mando um mail ao professor se ele teve coragem para te marcar falta e se for preciso vou falar com o diretor. Levas o teu lanche? Não faz mal, vais ao bar e pede lá um bolo e se não tiveres dinheiro no cartão não importa, eu agora não posso e eles nunca te vão negar um bolo.

Pergunta lá na escola e a tua diretora de turma que te diga quando é que saem as notas. Já não as colam no vidro? Então porquê, não sabes, filha? Mandam-nas para casa, aqueles covardes, e só para a tua mãe não saber que a tua amiga tem melhores notas do que tu e passa a vida nos tiktoks. Ali a vizinha é a mesma coisa. Tem a mania que é mais rica do que nós, sempre agarrada ao computador, a estudar é que não deve estar, não. São todos iguais e a tua mãe que faça tudo. Descansa, filha, descansa que a gente vai-se vingar. Um dia a gente vinga-se.

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