Mentir

Quando era criança confessava-me ao padre. Foi assim que me ensinaram. Foi assim que ensinaram quem me ensinou. E não levo a mal. Um dos grandes pecados era a mentira. O outro era roubar uvas, um bago que fosse, das vinhas alheias. Havia mais pecados, mas confessei-me mais vezes por dizerem que mentia. Não sei se mentia. Uma criança com sete ou oito anos, mesmo que minta, não mente com a consciência de mentiroso.

Hoje, a mentira não é pecado. Ninguém se confessa ao padre porque mentiu. E quantas crianças não saíram do confessionário perturbadas com a confissão? Quantas não saíram, de lágrimas nos olhos, porque o pecado não cometido, foi cometido no acto da confissão? Já conheci muitas e acabei de conhecer a última. Não porque pecou, mas porque o pecado divino não tem correspondência com o pecado psicológico. 

Hoje, nem sequer há pecado. Nada é pecado. Talvez seja melhor assim, mas os tempos modernos são de tal maneira nebulosos que não é difícil perder o Norte da vida. Talvez a palavra pecado não seja a palavra mais certa. Talvez hoje devesse ser substituída por outra. Talvez por manipulação. Talvez por ignorância. Talvez por preconceito. Talvez por desumanidade. 

Hoje, a mentira já não é mentira. Tão cheios de tudo e de nada, a mentira é uma virtude. Pecado é falar verdade. E ninguém se confessa ao padre ou aos tribunais por falar verdade. Falar verdade exige coragem. Como exigia antes mentir. Depois de ouvir, ler e conhecer tanta gente virtuosa a mentir, fico confuso sobre o valor da verdade.

No entanto, não poderei, em nome da verdade, calar a minha voz à voz da mentira. Quantas crianças vítimas da mentira? Em nome do superior interesse das crianças, mentimos. Quantos adultos não frequentam hoje, psicólogos e psiquiatras, porque a mentira os derrubou quando eram crianças? Porque a mentira os venceu. Quantas?

Quando era criança, confessava-me que mentia sem saber que mentia. Ficaria mais feliz, agora, e seria feita alguma justiça, se os adultos se confessassem, não aos padres, mas nos tribunais, que passaram a vida a mentir às crianças. 

Dedico este texto a todas as crianças que conheci e conheço, vítimas da mentira. E também a um adulto que acabei de conhecer.

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