Cansado

Chego ao final do ano letivo como comecei. Cansado. Não tanto pelo trabalho. Mais pela desilusão do tempo perdido. Na “escola moderna e inovadora” o que mais ganhamos é tempo perdido. Tempo precioso e fértil na criação de frustrações e desilusões. Tempo que daria de bom gosto, fosse esse tempo vida e criação. O suor que corre dentro da sala de aula em setembro é o mesmo suor que transpiro em junho.

A culpa pode ser do professor. Pode ser do aluno. Pode ser por razões desconhecidas, mas que conheço e sei identificar sem receios e sem preconceitos. A culpa não é nem do professor, nem do aluno. O professor é o mesmo que saiu da universidade convicto do trabalho e da responsabilidade que iria assumir durante uma vida inteira dedicada ao ensino dos mais jovens e com a mesma esperança que o fez crescer e aprender na escola.

Também não é culpa do aluno. É verdade que a desmotivação é geral nos alunos quando se fala em trabalho, em esforço ou empenho em aprender. Às vezes até protestam por terem de escrever mais uma frase ou ler e reler mais um parágrafo. Eles também devem sentir-se mais ou menos como eu. Cansados. Falta sempre qualquer coisa. Aos alunos e aos professores. Apesar de tudo, eles estão a horas na escola, transportam uma pesadíssima mochila carregada de livros e raramente faltam. Mas, quando se sentam nas cadeiras, é como se já lá não estivessem.

Os alunos já aprenderam que não importa muito aprender. E não é culpa deles. Fomos nós que os educámos assim. Muitos conseguem ser na escola os heróis que não podem ser em casa. Conseguem fazer na escola o que as circunstâncias lhes negam em casa. Mas, a maioria, não encontra nem orgulho nem beleza no trabalho diário da escola. O futuro é uma coisa longínqua e já aprenderam no telemóvel que um youtuber influencer ganha mais dinheiro do que o pai ou a mãe, a trabalhar na fábrica.

Os alunos já aprenderam, há muito, que o esforço não compensa. O trabalho não compensa. A dedicação, em qualquer tarefa, não compensa. O empenho, o esforço de atenção e concentração também não compensam, porque, afinal de contas, o seu vizinho é um preguiçoso e tem as mesmas notas que ele e, às vezes, até com prémios de mérito, sem compreender a razão, a existência e o porquê desse mérito. Porque o mérito é mais de quem o entrega do que de quem o recebe.

Então, e o professor? Amarrado à obediência e ausência de pensamento crítico, executa o seu trabalho, arrancando da alma a beleza do saber que quer transmitir aos seus alunos. Amarrado às ordens burocráticas e destituídas de sentido ou de utilidade, executa as tarefas, porque são obrigatórias, como um qualquer funcionário de uma fábrica que tira uma peça aqui para colocar noutro qualquer lugar. Tarefas cumpridas sem outro propósito que o cumprimento dessa tarefa. Afinal, a teoria do mérito é da mesma família da teoria da exclusão.

Talvez, na ânsia de tanto querer dar, as escolas tenham retirado, a alunos e professores, o valor de cada coisa, o valor de cada luta, o valor de cada conquista e o valor de cada vitória. A escola insípida. A escola pão, sem sal e sem fermento.

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