Castigo e retenção

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”.

É o Artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Reter um aluno no mesmo ano académico, na escolaridade básica e obrigatória, depois de um uno de frequência na escola, não é contraditório, com este princípio? Já lá vamos, mas sabemos que muitos países, há muitos anos, já anularam as retenções. Não é o caso português.

Um dos princípios, e da essência dos capitalismos, baseia-se na utilidade das coisas e do ser humano, tantas vezes, também, considerado uma coisa. Um aluno que não aprende, de acordo com aquilo que foi considerado por alguns que deveria aprender, não é útil. Logo, se não aprende e não é útil, reprova-se.

Muitos professores ainda é assim que pensam, apoiados pela perceção geral da sociedade e, em especial, dos políticos, que quem não aprende, tem de ser castigado e punido. Parece uma espécie de judicialização do ensino. O professor castigador. O professor juiz e a escola tribunal. O crime imputado ao aluno são dois ou três níveis negativos, que obteve na frequência de cerca de uma dezena de disciplinas. Não é positivo em duas ou três, tribunal e punição aplicada. Repete o ano todo.

Esta questão da retenção dos alunos numa escola, pode parecer merecedora de pouca importância. Mas não é. Estamos enganados. Muito mais, quando atravessamos tempos onde não cessam os ataques às ciências das Humanidades. Pouca importa se estudas Literatura, História ou Filosofia. Na perspetiva capitalista, são saberes de pouca ou nenhuma utilidade. Porque, lá está, o princípio da utilidade, também gémeo do princípio do lucro. Não aprendes, não és útil, não dás lucro. Portanto, reprovas.

Imaginemos uma escola com estas disciplinas: carpintaria, eletricidade, tanoaria, serralharia, canalizações, agricultura, silvicultura, pecuária, alvenaria…

Agora imaginem que um aluno tinha negativa em serralharia, carpintaria e eletricidade. Já não pode ser um excelente agricultor? Não pode ser um excelente canalizador? Não pode ser um excelente silvicultor? Não. De acordo com o nosso conceito de escola e de pessoa, não. Não pode. É um inútil. Um aluno que não aprende a clicar num computador e a digitalizar, também já não pode ser agricultor. Ainda não descobriram agricultura digitalizada com pepinos, feijões verdes ou brócolos digitais.

De facto, nem todos os seres humanos nascem iguais. Ainda bem. Podemos continuar a ter médicos e agricultores. O que não está bem é não respeitar a diferença e julgar todos pela mesma medida. Revoguem as retenções. Já. E não nos obriguem, a todos, a entrar na vida pela mesma porta.

2 opiniões sobre “Castigo e retenção

  1. Desta vez tenho de discordar do Agostinho. É normal diabolizar o inimigo para melhor o deitar abaixo Creio ser aqui o caso. A reprovação nunca pode ser encarada com um castigo, seja lá por que perspectiva for. Se tentarmos que a avaliação seja algo de minimamante objectivo (não é o caso do colega), então temos de constatar que alguns alunos não cumprem, não adquirem os conhecimentos e competências básicas (como aquele que confunde maçãs com massas). Perante essa constatação, o que fazer? Várias atitudes são possíveis. A do colega é a de comparar e misturar algo que não é comparável. O elenco de competências em agricultura nada tem a ver com serralharia. Agora as competências nas disciplinas básicas são absolutamente estruturantes e sem elas, o jovem nunca mais na vida poderá fazer nada a não ser as tarefas mais básicas e nem todas. Assim sendo, ou se abandona o desgraçado para que repita tudo outra vez ou se investe na sua recuperação com uma estratégia adequada à sua situação. Agora atirá-lo para o ano seguinte sem quaisquer bases, é condená-lo ao insucesso perpétuo, por mais mascarado que alguns o queiram encobrir. Fingir que queimar etapas vai dar a algum lado é pura loucura. Se não sabe a taboada, vai ter de a saber, se não sabe descodificar um texto, vai ter de saber, e assim por diante. Colocar o jovem num contexto onde todas essas competências são o pressuposto e a base para progredir e não as ter, é o pior que se pode fazer.

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  2. Muito do que durante séculos foi considerado utopia, hoje são tão básicas que nem pensamos nisso. Prometo que vou voltar a este assunto e explicar com simplicidade aquilo que não tem nada de complexo. E não vou ser nada original.

    Dizes, “Colocar o jovem num contexto onde todas essas competências são o pressuposto e a base para progredir e não as ter, é o pior que se pode fazer.”

    Não é o pior que se pode fazer, não. O pior que se pode fazer é o que todos nós fazemos: Passar administrativamente alunos num sistema que prevê retenções. Uma das grandes razões do descrédito a que chegaram as escolas e também os professores.

    Leste o texto do Guinote? A questão da retenção dos estrangeiros. Repara bem: Num sistema de não retenção todo esse discurso estúpido e racista da direita e extrema direita caía por terra. Nem sequer poderia existir. É só um pequeníssimo pormenor, entre muitos, das vantagens de um sistema de não retenção.

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