A questão da não retenção de alunos no mesmo ano letivo tem de ser resolvida com urgência. Os maiores beneficiados seremos todos.
Os professores, os governos e a opinião pública, em geral, confundem retenção com rigor na aprendizagem e na avaliação. Assim como confundem não retenção com desorganização, desmotivação e injustiça para com os alunos que se esforçam. Partem do princípio, e muitos o dizem, que uma criança, desde que se esforce, consegue e tem sucesso. O que é falso. Por vezes, basta mostrar só esforço, mesmo que não domine as aprendizagens. Faz-se equivaler o esforço a boas notas e a sucesso. Também é questionável a forma como se pode medir o esforço de um aluno.
Tem sido este o argumento mais usado para justificar a retenção. E pouco difere do conceito de pecado praticado na cultura católica. De acordo com isso, o pecado da preguiça é pecado, e, se é pecado, merece castigo. A retenção. Retém-se um aluno, de acordo com valores morais muito discutíveis e não por aprendizagens menos conseguidas.
O conceito moral de preguiça, há muito tempo que a ciência demonstrou que não se deve a fatores dependentes da vontade. As razões são exteriores ao próprio indivíduo considerado preguiçoso. E, temos de admitir e aceitar com frontalidade e honestidade, que nem todos nascem para aprender o que determina o currículo universal das escolas. O que não significa que não sejam indivíduos capazes de uma vida digna e com sucesso.
Outro dos argumentos usados para justificar a retenção de alunos baseia-se nas aprendizagens não conseguidas durante um ano letivo, com a certeza de que serão adquiridas com a repetição do mesmo ano. Argumento falso e farto de ser demonstrado por estudos já realizados há décadas. A base da argumentação é sempre a mesma: não aprendeu agora, vai aprender depois. Uma base absolutamente falsa. Continuamos a pensar de acordo com os mesmos modelos, quando a quarta classe equivalia pouco menos do que à conclusão, hoje, do secundário.
Não há pior sistema de educação e ferramentas tão medíocres de avaliação do que aquele sistema que contempla e defende a retenção de alunos, com dois ou três níveis negativos, mas que não reprova ninguém. É exatamente o que fazem as escolas em Portugal. É o nosso sistema. Os maus alunos julgam-se bons e os bons ficam ao nível dos maus, com níveis de avaliação idênticos.
Premiamos os maus e castigamos os bons. Além disso, não damos oportunidade aos bons de serem ainda melhores. Por outro lado, também nunca recuperamos ou resolvemos as dificuldades dos mais frágeis. Trata-se de uma seleção hipócrita e cobarde. Muito pior do que no antigo regime onde só os filhos de algumas famílias poderiam prosseguir estudos médios ou superiores.
A seleção não se realiza com base nas origens familiares, mas com base em códigos administrativos e burocráticos, que obrigam o professor e a escola a não poder reprovar qualquer aluno. É outra forma subtil de manter o ensino de qualidade só para as elites.
Falta ainda explicar como é que um sistema de não retenção é muito mais sério e rigoroso na avaliação do que o nosso sistema, que contempla a retenção. Para a próxima.

