O conceito de reprovação de um aluno está de tal modo enraizado na nossa cultura de escola que não é fácil desalojá-lo. Mas não é por isso que a reprovação de alunos na escolaridade básica deixa de ser um dos grandes erros do nosso sistema de educação. Erro imperdoável. Porque, falando verdade, já não é só a retenção, é como não se fica retido.
Além disso, custa-me a compreender que os professores não se revoltem e aceitem pacificamente a inflação descarada e vergonhosa das avaliações que se praticam nas nossas escolas, públicas e privadas. Talvez se deva ao cansaço da burocracia e ao legítimo sentimento de impotência. Pensam, e bem: “quem sou eu para mudar isto tudo se os chefes, ministros e diretores é que têm o poder e acham que está bem assim?”
Os grandes prejudicados são os alunos. Em rigor, somos todos nós. Não sabemos, nem queremos potenciar os grandes cérebros que se sentam nas cadeiras das nossas salas de aula. Podem não ser muitos, mas são bastantes. Também não sabemos, nem queremos recuperar e ajudar efetivamente os alunos que demonstram mais dificuldades.
Não consigo demonstrar ou provar o que acabei de afirmar. A máscara, estampada no processo de cada aluno, não o permite. Os encarregados de educação sabem disso. O que talvez não saibam é que o que está nos papéis tem pouca ou nenhuma correspondência com a realidade escolar dos seus educandos. Nos montes de folhas que enchem o processo individual de cada aluno, encontra-se a escola perfeita. A escola dos milagres. A escola do paraíso. A escola do sucesso total.
Na realidade, não se reprovam alunos, ou só se reprovam muito excecionalmente. Este “mérito” só se alcança com o desastroso inflacionamento das avaliações. Não tem, rigorosamente, repito, rigorosamente, nada a ver com melhorias das aprendizagens. Bem pelo contrário. Se a inflação pode ser, e é, um problema na economia, também não o é menos na educação. Nos sistemas de ensino que proíbem a reprovação de alunos, não se corre o risco de inflação.
Na pior das hipóteses, se insistimos, teimosamente, em manter este actual sistema de ensino, no que respeita às avaliações de alunos, no mínimo, deveríamos, obrigatoriamente, e em nome do rigor e honestidade nas avaliações, deveríamos avaliar justamente de acordo com o nível de aprendizagens que o aluno adquiriu, sem que isso tivesse como consequência direta a reprovação.
Isto é, independentemente do número de avaliações negativas nas disciplinas, o aluno progrediria, mas só, e só, até à conclusão da escolaridade obrigatória.
Estariam, assim, todos informados desde cedo, da possibilidade ou impossibilidade de acesso ao ensino superior. Estariam, assim, os professores aliviados da carga burocrática a que a inflação e não retenção forçada os obriga. Seriam, assim, responsabilizados os encarregados de educação pelas reais aprendizagens dos seus educandos.
O fim da escola da inflação e da ficção.


Uma opinião sobre “INFLAÇÃO E FICÇÃO ”