Às vezes, não acredito na escola. Às vezes, não acredito na História. Às vezes, não acredito nas pessoas. Às vezes, não acredito em ninguém.
São muitas desilusões ao mesmo tempo e, na minha idade, já não se aguenta tudo como antigamente. São muitas desilusões. Bem sei que somos todos muito fracos e cheios de limitações. Umas físicas, outras morais, outras emocionais e outras que nem sabemos definir e explicar. É verdade. Mas são muitas desilusões. Tantas vezes de onde menos esperávamos. Daqueles que considerávamos amigos. De pessoas próximas ou muito próximas.
– Ouve lá, pá, tu andas doido ou o que é que te aconteceu? Alguém te anda a perseguir? Sentes-te ameaçado? Quem é que te ameaça? Passas fome? Falta-te dinheiro para ires ao talho ou ao supermercado ou à padaria? O patrão não te paga o salário? Não tens casa? Uma casa confortável? Tens, não tens? A tua mulher foi-te infiel? Sentes-te revoltado? Com vontade de vingança? Os teus filhos não se portam bem? Dão-te muitos desgostos? Andam a consumir substâncias ilícitas? Ou és tu? Andas a beber muito? Com vontade de consumir muito álcool para te ausentares do mundo? O mundo é muito injusto contigo? O que é que te magoa tanto? É o excesso? Sentes que tens tudo em excesso e já perdeste o sentido e o gosto na tua existência? É por isso? Conta, conta-me o que é que tanto te atormenta na vida.
Não estava à procura de respostas. A desilusão atinge-nos e nada nos pode salvar. Como aqueles cães que, quando vamos tranquilos de bicicleta e, de repente, sentimos uma dentada traiçoeira no músculo da perna. Provoca uma dor dos diabos.
São dentadas muito violentas quando ferram o dente uma vez e outra vez e outra vez. A desilusão morde. Experimentem. É uma dor danada.
– Ouve lá, rapaz, o teu pai não foi emigrante? O desgraçado do teu pai não teve de fugir deste país, à procura de pão para que não te faltasse à mesa, a ti e aos teus irmãos? Tu não conheces as razões que obrigaram o teu pai a deixar a família para que tu e os teus irmãos pudessem estudar? Tu não estudaste muito? Foi porque não quiseste. Os teus irmãos estudaram. Eles até eram católicos. Iam à missa, nunca faltavam, e confessavam os seus pecados ao padre. Acreditavam naquele cristo que até defendeu uma prostituta e expulsou dos lugares sagrados os capitalistas desumanos daquela época. Era um homem corajoso, não concordas? Tu acreditas em quê?
Vi a tua fotografia pendurada num poste de eletricidade ao lado de um fariseu, ao lado de um vendilhão do templo, ao lado de um judas, ao lado de um cão raivoso que mata a fome e a sede com o sangue dos outros.
Estás lá a fazer o quê?
