Talvez tenha errado a profissão e o sentido da minha vida profissional. Deveria ter sido médico. Os médicos têm privilégios que, provavelmente, desconhecem ou que não consideram como privilégio. Os professores não. Por isso, em algum momento da minha vida, devo ter tomado a estrada onde a circulação de pessoas é mais terrível. A estrada mais esburacada onde facilmente caímos e com dificuldade nos erguemos e nos levantamos.
Conheço alguns escritores médicos e um deles é dos meus preferidos e dos que mais admiro. Refletem as suas angústias de médicos em confronto constante com as doenças e fraquezas humanas. Mas, é esse o seu privilégio. Os médicos olham os pacientes, observam com atenção todos os seus males e maleitas, prescrevem e transmitem-lhes uma receita que os pode curar.
Os professores, não. Os professores observam, estudam os seus alunos, conhecem-nos como ninguém, fazem diagnósticos, prescrevem soluções, mas não curam. É-lhes negado o direito do dever cumprido. O prazer da cura. Os seus pacientes estão em constante ebulição e submetidos a constantes pressões para as quais não há prescrições na sala de aula que curem os males que não se vêem.
Hoje, numa aula de História, estudávamos o comércio das especiarias com a Índia no século XVI. Líamos como tinham decorrido os primeiros contactos com esses povos. Uma criança pede a palavra e o que é que a atormentava? Os indianos são todos criminosos e vêm para Portugal só para cometer crimes e não trabalham. Toda a turma bateu palmas, exceto o professor. Não é a primeira vez que isto acontece.
Instala-se a angústia profissional e, por mais diagnósticos ou prescrições do professor, não há receitas nem medicamentos para males tão profundos. E a angústia dessa ausência desgasta. E mata. Mata a esperança do professor e questiona o cumprimento do seu dever. O professor vive a impotência de curar um paciente, uma turma de pacientes, que recusam ser curados porque não entendem a cura como cura. Olham a cura como se doença se tratasse e olham a doença como verdade absoluta que está curada. Os doentes são os outros. Até o professor.


Agostinho, não tens nenhum email do blog para onde possa escrever? É que há coisas que te queria perguntar mas não queria que aparecessem aqui publicadas.
Obrigada.
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