Fazer xixi.

Se as palavras ainda significam alguma coisa, eu considero que já atingimos a loucura e não sabemos que estamos loucos. Talvez se trate de uma loucura feliz e todos gostem dessa felicidade louca.

Nas urgências de um hospital, cerca de 20 trabalhadores, enfermeiros e médicos, em frente ao écran de um computador. A  cor predominante era o branco e o azul claro. De azul escuro, só vi uma médica. O resto eram doentes. Doentes novos e velhos e muito velhos. Uma velhinha, sentada num cadeirão, implorava para a levarem à casa de banho. Mas ninguém a via nem ouvia. 

Olhei à volta, não estivesse eu a sonhar ou a interpretar uma falsa realidade, e os 20 trabalhadores lá continuavam, sentados e concentrados, numa máquina de informática. Eram uma extensão dessa máquina. Bots humanos, robôs digitais vestidos de bata branca. E a velhinha a pedir para ir à casa de banho. Ouviam-se outros pedidos, todos em tom de penúria e de lamento. Mas ninguém podia ouvir. Só os outros doentes.

Lembrei-me das escolas. A burocracia é de tal ordem e dimensão que esquece o essencial: os alunos. Nas urgências, esquece os doentes. Ou talvez não, mas não havia ninguém para levar os velhinhos à casa de banho. Ouvi um deles dizer que nem bebia água com medo de ter de ir depois fazer xixi. Nas escolas e nos hospitais, a prioridade é justificar. Entretanto, alunos e doentes, que aguentem. E aguentam, esquecidos.

Para descrever uma sala de urgências de um hospital, teria necessidade de pedir ajuda a todos os mestres da escola surrealista. Deste, em concreto, talvez não fosse ainda suficiente. Não eram muitos os doentes, ali enlatados em macas e cadeiras de rodas, considerando que o hospital serve uma população de mais de 400 mil habitantes. Mas, não se pode meter a avenida da liberdade na rua da betesga. O espaço era exíguo, privacidade uma miragem e, aparentemente, poucos trabalhadores. 

É Natal. Não vale a pena fingirmos com palavras bonitas e bem intencionadas, feliz Natal. Boas festas. A realidade mantem-se e, se queremos que mude para melhor, não bastam as palavras bonitas de feliz Natal. Hoje sou eu, amanhã serás tu. Não tem de ser assim, nem precisa de ser assim. Os recursos humanos existem e o dinheiro também. Até demais, mesmo que digam que não. 

A guerra vale mais do que a dignidade na doença. Aumentar 700 milhões o orçamento da defesa, com certeza que não vai desenlatar os velhinhos das urgências e não vai arranjar mais médicos ou enfermeiros, nem vai ajudar a levar uma velhinha à casa de banho fazer xixi. Provavelmente, irá ainda enlatar mais doentes, neste e noutros hospitais do país. 

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