O grande repúdio

Nunca senti tanta raiva e tanto repúdio por um discurso de Natal como aquele que senti ao ouvir e ler o discurso do nosso primeiro ministro. Abjeto. Execrável. 

Porque eu sou de esquerda ou de direita? Não. Porque defendo, ou não defendo, este ou aquele partido político? Também não. Sou português. Porque sou português. 

Além de português, sou professor. E, para quem conhece a nossa História, a nossa literatura, a nossa ciência e a nossa sociedade, desde a sua fundação em 1143, não pode ficar indiferente àquele discurso repugnante e patético. 

O primeiro ministro ultrapassou os limites do razoável e do aceitável. Se, por acaso, existisse uma identidade nacional, eu negaria essa identidade e sentiria vergonha da História de Portugal e vergonha de ser português. Parece que dizer bacoradas está na moda. Pois, para mim, não está. O senhor ministro que vá botar faladura de ignorante, rico e abastado para o raio que o parta. Já me basta ouvir o ministro da educação a dizer que os pobres, por outras palavras, são uma merda.

O senhor primeiro ministro acabou de dizer aquilo que eu ouço todos os dias aos meus alunos, em todas as turmas na escola. Não estudem, não sejam estúpidos, não precisam de estudar para nada. Estudar para quê se vocês podem ser todos Cristianos Ronaldos? Os alunos conhecem esta música e gostam de a cantar e dançar.

Matemática? Oh stora, isso não serve para nada. Oh stor, estudar História para quê? O que é que isso interessa? Ciências? Ler livros? Para quê, stor? Oh stor, o Cristiano Ronaldo também não estudou e agora é muito mais rico que o stor.

O senhor primeiro ministro não falou em Luís de Camões, ou Eça de Queirós, ou Camilo Castelo Branco ou Saramago, o único prémio Nobel da literatura em língua portuguesa. Não falou no grande cientista António Damásio ou outros mais antigos, como Garcia da Orta ou Pedro Nunes. Nada. Não falou em grandes cirurgiões portugueses, médicos, economistas, engenheiros e arquitetos. Nada. Não falou em professores, investigadores, historiadores, e de todos aqueles que sofreram e morreram para podermos viver hoje, todos em liberdade. Nada. Cristiano Ronaldo.

O senhor primeiro ministro apresentou neste Natal aos portugueses o discurso mais estúpido, provinciano e ignorante que qualquer ser humano pode pronunciar. Além disso, trata-se de um discurso criminoso. Apelar à mentalidade de Cristiano Ronaldo, é apelar à mentalidade de quem se tem colocado ao lado de grandes criminosos. 

Se os meus pais fossem vivos e se eu ainda fosse criança, eles seriam os primeiros a reunir de emergência os filhos para lhes comunicarem: mentalidade de Cristiano Ronaldo, nunca.

Hoje, sou adulto, sou professor e sinto nojo dessa mentalidade. Portugal é grande, Portugal foi grande, Portugal pode ser maior, mas nunca com a mentalidade do futebolista Cristiano Ronaldo, ou com a mentalidade deste político, primeiro ministro.

2 opiniões sobre “O grande repúdio

  1. Amigo Agostinho, nem imaginas quanto me identifico com o teu excelente comentário. Tens carradas e carradas de razão. Mas eu vou ainda mais longe no desmonte do paleio viscoso do monte-escuro. Aquela arenga toda tem tb uma leitura inversa, ou seja, tão ou mais importante foi o que disse como principalmente o que náo disse. Parece evidente que o bacano pretendeu sim ocultar o vazio de propostas para desenvolver o país, a ausência de soluções que o seu desgraçado governo tem na manga para resolver as crises que vem agravando e para as quais mostra estar-se nas tintas. Nem sequer os maiores problemas de que o povo vem sofrendo lhe mereceram a mais breve alusão, chegando ao brilhante brilhante raciocínio tão caro a certas elites que postula o seguinte: a culpa é do povão porque é povão e não cultiva o espírito vencedor do CR7. Ora valha-lhe um burro aos coices, caneco!!!!

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