O regresso ao programa T4?

Ainda não chegámos lá, mas é como se já lá estivéssemos. As coisas agora acontecem com muito mais subtileza, misturada com muito mais cinismo e hipocrisia. Sim, estou a falar da nossa saúde pública e do descaramento malvado da avaliação de trabalhadores.

Nos hospitais, não se morre só por doença natural. Conhecem o programa T4? Adaptado aos nossos dias, este programa já está em vigor há alguns anos nos nossos hospitais. Desde o início do encerramento das primeiras maternidades.

Vigorou na Alemanha Nazi entre 1939 e 1941. Consistia, entre outros objetivos, na “eutanásia” forçada de todas as pessoas cuja vida fosse considerada sem valor ou prejudicial à economia do país. Por outras palavras, as pessoas consideradas inúteis à sociedade eram assassinadas em hospitais e com médicos e enfermeiros pagos para o efeito.

Velhos, velhinhos e velhinhas e outros desamparados… se vocês soubessem…

Quantas pessoas morrem porque a cirurgia foi marcada fora do prazo de vida? Quantas cirurgias ficaram por realizar porque não havia médicos e enfermeiros disponíveis? Quantas cirurgias ficaram por realizar porque já eram velhinhos ou velhinhas e já não compensava a despesa? Quantas cirurgias ficaram por se realizar e quantas vidas por salvar porque poderiam correr mal e contribuir para o insucesso da estatística? 

E quantos velhos e menos velhos deixam arrastar a doença até à morte, porque nunca viram um médico de família? Ah, cegueira a nossa…

Quantos velhinhos e velhinhas morreram e morrem precocemente no nosso sistema nacional de saúde porque são considerados uns inúteis, um estorvo e matéria bruta para o défice público? E quantos bebés nascem na viagem ou em casa sem a segurança necessária à sobrevivência da criança e da mãe? E quantos morrem por isso?

Compreendo médicos e enfermeiros e todos os trabalhadores da saúde. Eu não faria melhor e muitos se sacrificam em nome de um humanismo teimoso que ainda sobrevive aos ataques das avaliações de mérito e de sucesso e aos ataques da ideologia do lucro.

Até que os portugueses reconheçam e admitam que não são os Ronaldos e as cantigas vazias dos Tonis Carreiras que nos salvam deste mergulho cego no lamaçal de políticas desumanas. A tua vez chegará.

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