Já houve tempo em que a bolota não servia só para alimentar porcos. Também alimentava pessoas. Foi durante séculos a matéria-prima do pão do povo.
Hoje, o pão que alimenta o povo, é feito de muitas matérias-primas. A principal delas, chama-se joio. O povo gosta do sabor do joio. Aprecia o saber do joio. E já não sabe distinguir o trigo do joio.
Tenho alunos que também não sabem distinguir um grão de trigo de um feijão ou de uma fava. Não distinguem uma batata de uma beterraba. Não distinguem um feijão verde de uma ervilha. Não distinguem uma bolota de um grão de trigo. Não sabem o que é centeio ou aveia. Não sabem o que são cereais. Não sabem o que é uma seara. Nunca viram um campo de trigo ou de milho. Também não sabem que uma batata é arrancada de debaixo da terra.
Como é que hão de saber distinguir um grão de trigo de um grão de joio? Também não sabem o que é um arado ou uma charrua e os cereais são aqueles pacotes bonitos que estão nas prateleiras dos supermercados.
Desligámos a escola da terra e enterramos todos os dias os alunos em literacias digitais. As enxadas são o rato e o teclado do computador e os computadores são os tratores que não lavram nem produzem coisa alguma que mate a fome a alguém. Produzem joio e é do joio que nós alimentamos as novas gerações.
Apresentamos um produto digital, que não se agarra com as mãos nem se saboreia com a boca, como se se tratasse do maná celestial que nos há de alimentar a todos e devolver ao mundo a felicidade que Adão e Eva fizeram questão de destruir. O novo paraíso, deixou de ser o Éden e habita numa plataforma digital ou num qualquer jogo onde cada criança pode aprender a disparar tiros virtuais
Esquecemos que somos todos Seres na Terra. Que não somos Seres digitais, nem máquinas e robôs. Não nos alimentamos de aplicações digitais, nem de facebook, de tiktoks ou instagramas.
Estamos a construir escolas digitais e a roubar o mundo real às novas gerações. Estamos a divorciar as crianças da terra. Da terra que as alimenta e que fará delas as mulheres saudáveis e os homens saudáveis do futuro.
Foi nisto que pensei enquanto saboreava meia dúzia de passas de uva e ouvia as últimas badaladas que marcavam o fim e o início de um novo ano.

