Um dos primeiros sinais de alerta da pobreza é quando vemos ou sabemos que alguém passa a vida a ralhar. Lembro-me de uma família pobre, vizinhos da minha casa, quando ainda era criança, onde todos ralhavam com todos. Só não ralhavam quando o último conseguia adormecer. Todos os dias ralhavam. Por vezes, com bastante violência.
Ralhar também é dos primeiros sinais de alerta de muita ignorância e falta de formação. As pessoas ralham porque desconhecem que existem outros meios mais eficazes para resolver situações mais difíceis. Não só desconhecem, como acreditam que quanto mais ralharem mais poder exibem sobre quem ralham.
Ralhar ainda pode ser um poderoso sinal de alerta de muita cobardia. Parece que não, mas é verdade. A pessoa é cobarde quando ralha, porque deixa extravasar a sua fúria sobre alguém mais fraco e amedronta-se quando está na presença de alguém com mais poder. Normalmente, os cobardes são os que mais ralham e mais bajulam, e fazem disso uma filosofia de vida.
Ralhar é um modo de vida habitual nas escolas em Portugal. Penso que também é comum em muitas famílias portuguesas. Se calhar, ralham muito nas escolas, porque também estão habituados a ralhar em casa. Mas, é muito curioso, às vezes, muito ridículo e, outras vezes, muito cómico. Ralhar pode ser tudo isso.
Ralhar é a evidência de um país pobre, ignorante, sem formação, preguiçoso, desorganizado e muito pouco democrata. Nas escolas, os alunos já se habituaram à inconsequência desse habitual método de ralhar. Um aluno passa o dia a vaguear pelo recreio da escola e falta às aulas. Como é que resolvemos esse problema? Ralhar. O aluno repete e volta a repetir a mesma aventura. E o que é que fazemos? Ralhar.
O aluno é conflituoso, provoca os colegas, os funcionários da escola e os professores, com gestos e linguagem agressiva e obscena. Como é que tranquilizamos a nossa consciência? Ralhar. E dever cumprido. Ralhámos. Ralhámos muito alto com o aluno. Cumprimos a nossa obrigação cívica: ralhar. O aluno repete o que já é habitual repetir e os outros também. Ralhar. Ralhar. Ralhar.
As nossas escolas, onde ministros e diretores se gabam de tanta inovação, ainda não perderam a vergonha de resolver os conflitos com o método pedagógico mais rude e mais analógico. Ralhar.

